12 Abr, 2016

GÜNTER GRASS E O RESPEITO PELA ARTE DA TRADUÇÃO

12 Abr, 2016

O escritor Günter Grass (1927 – 2015) teve uma carreira intensa: publicou mais de trinta livros, escreveu uma das obras mais famosas da língua alemã (O Tambor, 1959), ganhou o Nobel de Literatura (1999), foi traduzido para vinte idiomas e gerou polêmica e decepção ao revelar, em 2006, seu vergonhoso alistamento no exército nazista ao final da Segunda Guerra, quando tinha apenas 17 anos – mácula indelével em sua história.

Aqui, porém, gostaríamos de lembrar um hábito mantido por Grass durante muito tempo – pouco conhecido de seus leitores, mas fundamental para que as obras do autor chegassem a outros países. A cada novo romance editado, Grass convidava um grupo de seus tradutores para um encontro de três ou quatro dias, durante o qual trabalhava em parceria com eles, respondendo às perguntas dos profissionais que iriam verter seus livros para outras línguas.

Grass deu início a essas oficinas nos anos 80. A ideia surgiu quando ele recebeu de um professor sueco uma extensa lista de erros de tradução em um de seus títulos. Incomodado com as falhas, o escritor percebeu que a única maneira de zelar pela qualidade das traduções seria abrir as portas para os tradutores e trabalhar lado a lado com eles – literalmente.

Para os profissionais responsáveis pelas traduções, os encontros representavam o mundo ideal: um grande autor disponível para dirimir dúvidas e esclarecer os trechos mais espinhosos de seus textos (escritos numa língua notoriamente idiossincrática). Para Grass, colaborar com americanos, dinamarqueses, espanhóis, japoneses, brasileiros e especialistas de tantas outras nacionalidades era a melhor forma de garantir versões que respeitassem o original alemão. Os tradutores, dizia ele, eram seus “melhores leitores”.

Embora a tradução escrita guarde diferenças consideráveis em relação à tradução simultânea (a primeira é mais duradoura, a segunda é mais efêmera; uma é mais burilada, outra exige rapidez de raciocínio; etc.), os encontros promovidos por Günter Grass trazem uma importante lição para a interpretação de conferências. Trata-se de um ponto no qual os intérpretes sempre insistem: a importância de trabalhar em parceria com o palestrante ou o cliente.

Antes de uma conferência ou reunião com tradução simultânea, os intérpretes invariavelmente solicitam material sobre o evento, o assunto e os palestrantes que irão falar. À semelhança do trabalho realizado entre Grass e seus tradutores, a ideia é conhecer os assuntos e termos que serão usados, de modo a estudar e estar bem preparado na hora da tradução propriamente dita. Infelizmente, esse pedido nem sempre é atendido.

O raciocínio do autor alemão se aplica, portanto, a um cardiologista que discursa num congresso internacional de Medicina, a um economista que fala para uma plateia de estrangeiros, a um treinamento na área de TI com participantes de diferentes países: quanto mais informações o palestrante ou cliente passar para o intérprete, melhor será o resultado da tradução simultânea. Fazendo uma analogia com a declaração de Grass, talvez os intérpretes sejam os “melhores ouvintes” dos palestrantes.

«
»

Leave a comment:

O seu endereço de e-mail não será publicado.