29 Mar, 2016

O DRAMA DOS “TERPS”, OS INTÉRPRETES DE GUERRA

29 Mar, 2016

Ser intérprete de guerra é tarefa de alto risco e muita coragem. Tradutores que trabalham em zonas de conflito põem a própria vida em jogo, exercem sua função diante de cadáveres e em meio ao fogo cruzado – literalmente. Com frequência, a presença de um intérprete no campo de batalha significa a diferença entre a vida e a morte: entender o que o inimigo está dizendo é crucial. Foi assim durante a Guerra do Iraque, de 2003 a 2011, e também no combate ao Talibã, no Afeganistão, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001. Entre os soldados de língua inglesa, os responsáveis por fazer a ponte entre os diferentes idiomas envolvidos são conhecidos como “terps” (abreviação da palavra “interpreters”).

O histórico de serviços prestados, porém, não tem sensibilizado as autoridades dos países que se beneficiam dos serviços dos intérpretes: algumas nações ocidentais se recusam a conceder asilo a esses civis, ameaçados de morte em sua terra natal. Agora, uma decisão recente do Reino Unido pode ajudar a reverter esse quadro.

O caso envolve um intérprete afegão que trabalhou para as forças de coalizão, na guerra contra o Talibã. O homem, cujo nome é mantido em sigilo, saiu de Cabul e fugiu para a Inglaterra em 2014, temendo pela própria vida depois que as tropas aliadas começaram a se retirar do Afeganistão. Desde então ele tenta obter permissão do governo britânico para fixar residência permanente, argumentando que pode ser morto caso volte para seu país de origem.

O episódio já teve várias idas e vindas: em abril de 2015, o Home Office (órgão do governo britânico responsável por imigração e combate ao terrorismo) tentou enviar o intérprete de volta ao Afeganistão, num voo fretado, alegando que a situação em Cabul já era segura. A viagem foi barrada no último minuto por uma decisão judicial, e o afegão continua no Reino Unido.

Na semana passada, finalmente um sinal de vitória: o Home Office anunciou que vai conceder asilo ao homem e rever a política de repatriar os intérpretes afegãos. A decisão foi celebrada pela sociedade – mais de cem mil pessoas haviam participado de um abaixo-assinado em favor dos intérpretes, entre elas generais e heróis de guerra do exército britânico –, e pode beneficiar dezenas de estrangeiros na mesma situação.

Nos Estados Unidos, porém, a tendência parece ser fechar as portas para os intérpretes que colaboraram com as tropas americanas. Diversos tradutores iraquianos e afegãos vêm tendo pedidos de asilo negados por Washington, com a justificativa de que eles não correm perigo.

Ibrahim Esmael Ibrahim é um deles. Em 2007, ainda adolescente, ele trabalhou como intérprete para uma empresa contratada pelo governo americano para prestar serviços de tradução simultânea e escrita no Iraque. Meses depois, Ibrahim começou a receber ameaças de morte dos insurgentes, e fugiu do país. De lá para cá, o iraquiano peregrinou por Síria, Turquia e agora está na Grécia. Ibrahim já tentou diversas vezes obter um visto para os Estados Unidos, usando o SIV – sigla para Visto Especial de Imigração, programa do governo americano criado especificamente para estrangeiros que trabalharam no Iraque e Afeganistão. Ibrahim afirma que jamais recebeu sequer uma resposta a esses pedidos.

O problema é antigo. Em outubro de 2014 a situação dramática dos intérpretes de guerra já havia sido denunciada pelo apresentador John Oliver, em seu programa de televisão Last Week Tonight. Com ironia mordaz, Oliver chamou a atenção para a injustiça e a indiferença do governo americano em relação aos homens que ajudaram a salvar a vida de incontáveis soldados da coalizão.

Confira aqui algumas reportagens publicadas pela imprensa britânica e americana, bem como o vídeo em que John Oliver chama atenção para o problema (textos e áudio em inglês).

A Vox aproveita para divulgar o trabalho da RedT, uma organização sem fins lucrativos que luta pela proteção de tradutores e intérpretes em situações de risco – sobretudo em cenários de guerra.

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