03 Dez, 2013

Presidente ou presidenta?

03 Dez, 2013

 

Que uma língua é mais que gramáticas e ortografias é sabido por muitos. Que ela é poder e veículo de ideologias, bem, talvez bem menos do que imaginemos. Sabemos realmente como isso se traduz na prática e no uso do nosso idioma? Quando Dilma Rousseff foi eleita a primeira mulher para a presidência do Brasil,  reacendeu-se uma polêmica que transcende as normas gramaticais. Qual a forma de tratamento correta para a autoridade máxima de nosso país: “presidente” ou “presidenta”? As duas estão registradas na Academia Brasileira de Letras (no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa), no respeitado dicionário Houaiss, no Aurélio e alguns outros, mas há divergências.

Registra-se a presença do termo “presidenta” desde 1899 no dicionário de Cândido de Figueiredo: "Presidenta, f. (neol.) mulher que preside; mulher de um presidente. (Fem. de presidente.)"

Aulete: s. f. || (fam.) mulher que preside; esposa de um presidente. F. Presidente.

Em um concurso público, por exemplo, o candidato pode fazer uso da forma “presidenta” e não perderá nota referente à língua-padrão. Por quê? Justamente porque a grafia é secular, tem o aval da Academia, dos dicionários e do uso popular.

Apesar disso, muitos preferem o uso de “a presidente”, pelo fato de nomes de dois gêneros terminados em -ente não apresentarem flexão de gênero, finalizando-os em –a. Alguns exemplos: crente, gerente, docente, discente, servente. Para os que assim crêem, o artigo definido é o bastante para a variação em gênero.

Miriam Mine, da Universidade Federal do Paraná, explica que no português há particípios ativos que funcionam como derivativos verbais. Por exemplo: o particípio ativo do verbo atacar é atacante, de pedir é pedinte, o de existir é existente, o de mendigar é mendicante… Qual é o particípio ativo do verbo ser? O particípio ativo do verbo ser é ente. Aquele que é: o ente. Aquele que tem entidade.Assim, quando queremos designar alguém com capacidade para exercer a ação que expressa um verbo, há que se adicionar à raiz verbal os sufixos ante, ente ou inte. Portanto, à pessoa que preside é PRESIDENTE, e não "presidenta", independentemente do sexo que tenha. Se diz capela ardente, e não capela "ardenta"; se diz estudante, e não "estudanta"; se diz adolescente, e não "adolescenta"; se diz paciente, e não "pacienta".

Pilar del Río, presidente (ou presidenta) da Fundação José Saramago, veio este ano ao Brasil para participar da cerimônia de relançamento de dois romances importantes do autor e, em declaração feita ao Jornal Folha de São Paulo, foi taxativa quanto a sua preferência terminológica:

“Uma coisa, para o futuro, se o tivermos: nunca fui, vida afora, uma esposa, e tampouco sou, agora, uma viúva. O papel de viúva ou que me apresentem como ‘a viúva’ me deixa revoltada. Sou a companheira, ou a tradutora ou a PRESIDENTA, palavra que existe em português, está nos dicionários logo acima da palavra PRESIDENTE. Vamos ver se a mídia deixa de ignorar as mulheres que presidimos. E se começam a entender que há uma diferença entre função e quem desempenha a função: a pessoa que preside é uma coisa, quem preside pode ser homem ou mulher e, nesse caso, será presidenta ou presidenta se as regras forem respeitadas. Sei que é um debate cansativo, mas muito mais cansativo é ver tantas pessoas bem instruídas, e tantos meios, cometendo um erro ortográfico que, além de tudo, revela uma concepção machista do mundo. Ainda mais quando quem governa o Brasil não se vê como um homem, mas sim como uma mulher que preside, ou seja, presidenta. A recusa de aceitar o nome das coisas só implica que não se aceitem as coisas.”

 

Preferências à parte, fica a riqueza de nossa língua portuguesa, com a qual temos a possibilidade de expressar tal como um prisma uma enormidade de ideias e pensamentos. Presidente ou presidenta: Agora você pode escolher.

 

 

 

«
»

Leave a comment:

O seu endereço de e-mail não será publicado.