13 Set / 2021

In the arm or in the “bumbum”?, eis a questão

“Why does everyone get in the arm, but I’m getting it in the bumbum?”. Nada como um olhar estrangeiro para a gente achar graça em coisas tão nossas que até passam batidas em meio ao toró de informações do dia a dia. Jornais e sites brasileiros já haviam noticiado a inesperada parte do corpo escolhida pelas autoridades sanitárias de Joinville para aplicar a vacina contra a Covid-19: não o braço, e sim o traseiro. Em suas matérias, os veículos locais optaram por termos com um jeitão mais médico-científico, como “glúteo”, “ventroglúteo”, “nádegas”, etc. Mas eis que Terrence McCoy, correspondente do Washington Post no Brasil, decide dar nome aos bois: “I found out that almost everyone was taking the vaccine in the bunda“, escreveu ele, sem pudor, fazendo questão de deixar o último elemento da frase em português – num sinal claro de que o vocábulo merece deferência.

É curioso como a mesma palavra ecoa de um jeito diferente quando surge intrometida em outro idioma, um elemento extravagante no meio de uma sentença aparentemente prosaica. Nas reportagens escritas em português, talvez realmente ficasse estranho e até desrespeitoso escrever “bunda” assim, sem constrangimento. (Minha avó, que cresceu numa família pudica em Alagoas, dizia que na casa dela a palavra era proibida: só se referia a essa região da anatomia humana pelo código cifrado “tundá”.) No entanto, misturados a um texto bem-humorado em inglês – ou, para todos os efeitos, em qualquer outro idioma estrangeiro –, esses termos se revelam graciosos, pitorescos. É como se a gente redescobrisse um orgulho ufanista em relação à própria língua: só nós, brasileiros, temos uma palavra tão peculiar quanto “bumbum”. Está certo que o bumbum propriamente dito foi associado a uma porção de estereótipos grosseiros e machistas sobre o Brasil e principalmente sobre a mulher brasileira (o repórter americano lista alguns deles em seu texto). Mas, aqui, me refiro a aspectos fonéticos, semânticos, etimológicos: a matriz nitidamente africana, que nos conecta a um naco determinante da nossa história; a grafia que cria uma representação quase visual, com duas sílabas curvilíneas postas lado a lado; o som que retumba como um instrumento de percussão.

(Informação para nerds linguísticos: bumbum é um hipocorístico, uma palavra adaptada para uso doméstico e afetivo, de bunda – que, por sua vez, vem do quimbundo, língua falada em Angola, e significa “quadris, nádegas”.)

Terrence McCoy também não teve medo de fazer uma porção de trocadilhos em inglês – nem mesmo no título: “Most everyone gets the coronavirus vaccine in the arm. Butt this Brazilian city is shooting lower” (grifo meu para o termo em inglês, equivalente a bumbum, que o jornalista usou no lugar do conhecido “but” adversativo, grafado com um único T). E mais adiante: “City spokesman Thiago Boeing said officials aren’t allowing anything to fall between the cracks.” Em inglês, “to fall between the cracks” significa “deixar alguma coisa escapar” (aqui, usada na negativa, a expressão traz o sentido de que as autoridades estão atentas a tudo, seguras da escolha de aplicar o imunizante mais embaixo). Mas “butt crack” é também uma gíria para o bom e velho “cofrinho” – e aí o jogo de sentidos fica claro. Eu sei que trocadilhos são polêmicos, e quase invariavelmente vêm acompanhados do adjetivo “infame” (o que considero uma tremenda injustiça). A prova de que são um elemento linguístico sofisticado é a dificuldade de traduzi-los, conforme apontou Paulo Rónai em seu ensaio “Defesa e ilustração do trocadilho”. O caso acima é exemplar: a frase escrita por McCoy fica divertida em inglês, no contexto da reportagem. Mas quando a gente passa para o português, perde a graça – como uma piada ruim, que o interlocutor não entende e a gente precisa explicar o final.

Moral da história: tomemos todos a vacina. Não importa se ela vai “in the arm or in the bumbum”.

 

Texto de Beatriz Velloso.

30 Ago / 2021

“Posso traduzir primeiro?”

A participação diplomática e precisa da intérprete Zhang Jing durante uma reunião bilateral chamou atenção para o trabalho fundamental dos tradutores – presentes em todos os grandes momentos da História, desde o Antigo Egito até a queda da Cortina de Ferro

“Vamos dar um aumento para a intérprete”. Assim o Secretário de Estado americano, Antony Blinken, elogiou o trabalho de Zhang Jing, responsável pela tradução consecutiva das reuniões oficiais entre China e Estados Unidos – as primeiras sob o governo de Joe Biden.

Durante um momento particularmente tenso do encontro, realizado no Alasca, o diplomata chinês Yang Jiechi deu uma resposta de 16 minutos ininterruptos a um comentário feito por Blinken. Enquanto Jiechi falava sem parar, a intérprete tomava notas furiosamente, e a delegação americana aguardava a tradução. Quando Jiechi finalmente terminou, ele fez um sinal para que o Ministro das Relações Exteriores da China continuasse – esquecendo-se da intérprete. O ministro, por sua vez, acenou para a intérprete, e Jing interrompeu com delicadeza: “posso traduzir primeiro?”. Em inglês, Jiechi sorriu e disse: “é um teste para a intérprete”. E foi aí que Blinken sapecou a brincadeira sobre o reajuste no salário. A cena viralizou na China e Jing saiu dos bastidores – onde os intérpretes costumam ficar – para se tornar uma celebridade no Twitter.

O episódio é o exemplo mais recente da importância dos intérpretes em contextos diplomáticos. “Sem eles, simplesmente não haveria relações internacionais”, resume Jean Delisle, professor da Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade de Ottawa, no Canadá. É dele o prefácio de Interpreters as Diplomats (inédito em português), escrito pela cientista política Ruth A. Roland, um livrinho curto e super interessante sobre a fascinante presença de tradutores em diversos momentos da História – desde os tempos dos faraós, no Antigo Egito, até o fim da Guerra Fria, passando pela chegada das naus de Pedro Álvares Cabral ao Brasil.

O caso de Zhang Jing chama atenção porque, desde o advento da interpretação simultânea (aquela com fones de ouvido para a plateia, e mais recentemente feita por plataformas online), a modalidade consecutiva que foi usada na reunião sino-americana tornou-se bem menos frequente. E, quando ocorre, os trechos traduzidos pelos intérpretes são mais curtos – dois, três, no máximo cinco minutos cada (e não os intermináveis 16, como se viu no Alasca). Em alguns casos opta-se até pela chamada “interpretação intermitente”, ou frase por frase. Mas hoje em dia é extremamente raro alguém falar por tanto tempo sem fazer pausas para a interpretação. E a dificuldade da tarefa – que exige alto grau de memória e concentração, habilidade de anotação rápida e resumida, precisão e sobretudo sangue frio – foi reconhecida no comentário bem-humorado do Secretário de Estado americano.

A interpretação simultânea surgiu após a Segunda Guerra Mundial, durante os Julgamentos de Nurembergue, onde havia quatro idiomas oficiais (inglês, francês, russo e alemão). Traduzir de forma consecutiva todos os depoimentos e arguições, para todos esses idiomas, seria impraticável – e levaria anos. Foi desenvolvida então uma versão rudimentar dos equipamentos que temos atualmente, com microfones para os intérpretes, cabos e fones de ouvido para a plateia. Antes disso, porém, a consecutiva era “a” modalidade em qualquer ocasião oficial. Naqueles tempos, os intérpretes mais experientes e famosos eram capazes de ouvir discursos de até uma hora e depois traduzir tudo, de forma fiel e precisa. Assim funcionava, por exemplo, a Liga das Nações, onde intérpretes lendários como Paul Mantoux costumavam roubar a cena. Esses profissionais tinham tamanha importância para o funcionamento do organismo multilateral, e desfrutavam de tamanho prestígio, que contavam com os mesmos privilégios que os delegados dos países – incluindo imunidade diplomática.

Com efeito, as habilidades diplomáticas (uma mistura bem azeitada de clareza na comunicação, capacidade de negociação e muito tato) são fundamentais para qualquer bom intérprete. Ainda nas palavras do professor Delisle, esses profissionais são “acrobatas linguísticos que vivem se equilibrando numa corda bamba: eles têm o instinto de entrar em estado de alerta sempre que há tensão no ar, discussões acaloradas ou paixões extremadas em jogo”. A intérprete Jing certamente estava com todas as antenas ligadas na reunião da semana passada – não apenas no longo discurso de Yang Jiechi, mas durante todo o encontro.

O caso ocorrido no Alasca revela, ainda, uma dimensão fundamental da língua como arma de afirmação política, econômica, comercial e cultural. Em encontros diplomáticos ou entre chefes de estado, os presentes sempre falam no próprio idioma e contam com intérpretes. Por isso fiquei brava há algum tempo quando a Folha de S. Paulo publicou uma reportagem dizendo que a presença de intérpretes durante uma visita do atual presidente brasileiro ao então líder americano Donald Trump “prejudicava” a conversa. O comentário, feito justamente no caderno que cobre assuntos internacionais, revelava um tremendo desconhecimento sobre a dinâmica dos encontros bi ou multilaterais. Além de facilitar a vida dos participantes (que ficam à vontade para se concentrar no que interessa – a mensagem – sem se preocupar com a estrutura da frase, a pronúncia ou a gramática em um idioma estrangeiro), a interpretação é uma tradição secular em contextos diplomáticos, e carrega consigo um recado: nenhum idioma deve se sobrepor a outro, e todos têm o direito de se expressar na sua língua materna.

Um exemplo histórico: em 1936, ao solicitar ajuda da Liga das Nações contra um ataque italiano, o imperador da Etiópia Haile Selassie fez questão de se dirigir ao plenário em amárico – e foi traduzido para o francês por um intérprete. Selassie falava um francês impecável, mas fazê-lo naquela ocasião, num discurso com aquele conteúdo, seria um sinal de dominação pelos europeus, e o imperador quis marcar posição ao usar o idioma do seu país. Assim é também com deputados indígenas do Canadá e da Austrália, que conquistaram o direito de ir à tribuna discursar em suas línguas, com a presença de intérpretes. Ou no Parlamento Europeu, onde todos (todos mesmo, e olhe que são 27 estados membros) os representantes podem falar na própria língua. E assim foi na recente rodada entre China e Estados Unidos: o diplomata Jiechi estudou no Reino Unido e é fluente em inglês, mas usou seu idioma materno. O embate da semana passada foi mais um capítulo nessa “briga de cachorro grande” em que ambos os lados buscam marcar território – inclusive do ponto de vista linguístico, já que inglês e mandarim são, cabeça a cabeça, os dois idiomas mais falados do mundo.

É evidente que, às vezes, a presença dos intérpretes é usada como ferramenta de manipulação. Em alguns momentos, as partes aproveitam os minutos em que o tradutor fala para pensar no próximo argumento ou resposta. Em outras situações, sugerem que a tradução estava errada como forma de corrigir algum equívoco ou comentário infeliz produzido na língua original (embora os intérpretes possam errar, é claro, como qualquer ser humano).

Não é possível saber se o longo discurso de Yang Jiechi, que colocou a intérprete chinesa sob os holofotes e a levou a viralizar no TikTok, teve uma intenção estratégica. O fato é que o diplomata chutou uma bola quadrada para Zhang Jing – mas ela dominou, matou no peito, fez uma bela tradução consecutiva e marcou um gol para a nossa profissão.

Texto de Beatriz Velloso.

23 Ago / 2021

O Tamanho das Línguas

Eu tirei a foto abaixo há um bom tempo – naquele “passado distante” em que a gente ia a museus, cinemas e restaurantes, ou se amontoava em aeroportos e voos lotados. É a imagem de uma das legendas de parede da exposição de Takashi Murakami no Instituto Tomie Ohtake, realizada em São Paulo no final de 2019. Na época, as duas colunas de texto colocadas lado a lado, em português e inglês, chamaram minha atenção quase tanto quanto as obras grandiosas, coloridas e oníricas do artista japonês: eram uma representação gráfica muito clara da diferença no tamanho das línguas.

Lembrei dessa foto hoje, enquanto fazia a tradução de um arquivo em formato Powerpoint. Terminado o trabalho, os textos em português ficaram todos, sem exceção, mais longos do que os originais em inglês – o que acabou alterando um pouquinho o layout dos slides.

Alguns clientes às vezes têm dificuldade de compreender essa característica intrínseca das línguas – o que é totalmente compreensível para quem não trabalha com idiomas de forma tão íntima quanto tradutores e intérpretes: o português (e as línguas latinas, de maneira geral) é mais prolixo do que o inglês. No Brasil, quase sempre precisamos de mais palavras para dizer a mesma coisa que um americano ou britânico. Em parte, isso se deve à estrutura dos idiomas: via de regra, o inglês é mais sucinto, mais afeito a contrações que transformam duas palavras em uma (did not = didn’t), mais capaz de resumir ações que soam compridas em português (“garden”, como verbo, é o que nós chamamos “praticar jardinagem” – uma diferença de 12 letras!). Além disso, o inglês usa menos artigos: no exemplo da foto das legendas da exposição, “Japanese art and culture” vira “A arte e a cultura japonesas”.

Mas há também questões culturais em jogo: por aqui, temos um jeito mais elaborado de falar, mais cheio de salamaleques (o que, na minha opinião, faz parte do charme do português). Para constatar essas variações de personalidade linguística, basta recorrer a uma expressão prosaica do cotidiano: o clássico “mind the gap” do metrô londrino, um primor de concisão, vira “ao desembarcar, cuidado com o vão entre o trem e a plataforma” nas estações de São Paulo.

A comparação entre as duas colunas de texto da foto tirada no Tomie Ohtake e os outros exemplos citados acima podem parecer irrelevantes. Afinal de contas, que diferença fazem 12 letrinhas (ou 40, no caso do aviso sonoro nos vagões)? Pois elas fazem diferença sim, e muita. Somadas, essas pequenas alterações de tamanho ao longo de uma publicação mais comprida, de um livro, de uma apresentação de slides ou de um cartaz podem significar mudanças na paginação, no tamanho da fonte escolhida, no espaçamento, na quantidade de páginas e até de tinta necessárias para impressão. Tudo isso tem um efeito não apenas estético, mas também financeiro, que deve ser levado em consideração. Além disso, vale lembrar que o trabalho dos tradutores é traduzir – mas não paginar, fazer ajustes no design ou editar, decidindo o que fica e o que sai caso a intenção seja preservar o tamanho do texto.

Moral da história: se na sua empresa você precisa de traduções, lembre-se de que as línguas têm diferentes estruturas, gramáticas, sintaxes, ortografias – e, consequentemente, tamanhos. Vale a pena computar essas variáveis quando tiver em mãos um texto em inglês que precisa ser vertido para português. A chance de receber de volta um arquivo com mais caracteres e palavras do que o enviado originalmente é imensa.

Em tempo: não me lembro mais o nome do/a tradutor/a responsável pelos textos sobre Murakami, embora com certeza eu tenha observado isso quando fui à exposição. Se alguém souber, avise aqui para que eu possa dar o devido crédito.

Texto de Beatriz Velloso.

16 Ago / 2021

Vem aí um estudo sobre o impacto da “cabine virtual”​ no desempenho do intérprete

“Por dentro da cabine virtual: o impacto das características da interpretação remota na experiência e no desempenho do intérprete”. O tema não poderia ser mais relevante neste (já nem tão) novo mundo de webinars, lives e videoconferências com tradução simultânea. O projeto de pesquisa de Nicoletta Spinolo (Universidade de Bolonha, Itália) e Agnieszka Chmiel (Universidade  Adam Mickiewicz, Polônia) foi o ganhador da bolsa de estudos oferecida pela AIIC, a Associação Internacional de Intérpretes de Conferência. As duas pesquisadoras vão avaliar como o input recebido pelo intérprete na interpretação online (áudio, vídeo, etc.) e a estrutura do local de trabalho (em casa ou num estúdio de interpretação) afetam os níveis de estresse, fadiga e a carga cognitiva dos profissionais da área.

Os resultados do estudo podem ajudar muitos intérpretes a aprimorar ainda mais as condições da tradução simultânea remota – ou RSI, na sigla em inglês – até que os eventos presenciais voltem a acontecer (“se”, “quando” e “como” isso vai ocorrer… aí já é outro papo).

Em tempo: a professora Chmiel é também autora de outro trabalho interessante que mistura Estudos da Interpretação e Psicolinguística. Nele, os intérpretes – cuja prática ativa e simultânea de mais de um idioma é única e altamente complexa, diferente inclusive de pessoas bilíngues que não são intérpretes – são usados para observar questões cognitivas importantes. O artigo de Chmiel, “Interpreting Studies and Psycholinguistics”, foi publicado no livro “Why Translation Studies Matters“, que tem muita coisa boa para quem gosta do assunto – como uma análise sobre as áreas do cérebro ativadas durante a interpretação simultânea, feita com a ajuda de ressonância magnética, e um texto sobre a censura do regime franquista espanhol (1936 – 1975) às traduções de filmes americanos de faroeste.

Texto de Beatriz Velloso.

09 Ago / 2021

As Olimpíadas e a interpretação: Do esporte para a cabine, último capítulo

Neste texto que encerra a série “As Olimpíadas e a Interpretação”, vamos usar o vôlei de praia para tratar de um aspecto crucial da tradução simultânea: o trabalho em duplas. Na cabine, assim como na areia, a sintonia entre os parceiros profissionais é fundamental para chegar à vitória – seja ela uma medalha ou uma interpretação bem-feita.

O passar da bola entre um e outro integrante da dupla são como o revezamento dentro da cabine. Devido ao alto grau de concentração exigido pela tradução simultânea, e às muitas horas que o intérprete passa falando, a interpretação é feita em duplas sempre que a duração do evento ultrapassa uma hora. A presença de dois profissionais garante que ambos consigam manter um alto nível de atenção e possam descansar a voz (e o cérebro!). Vale lembrar que, num congresso ou reunião internacional, os convidados se alternam: um palestrante fala durante uma hora, a plateia faz perguntas, outro palestrante sobe ao palco… Um único intérprete ficaria exaurido se fosse traduzir sozinho todas essas pessoas – e o cansaço, por consequência, levaria a uma queda na qualidade do trabalho. Daí a convenção, estabelecida nos primórdios da profissão e observada em todo o mundo, de trabalhar em pares.

Existe outra analogia entre o vôlei de praia e a interpretação de conferências: a necessidade de uma comunicação silenciosa, sem palavras, entre as duplas. Numa partida na areia (e também em quadras cobertas, diga-se), os jogadores se comunicam por olhares, gestos e, com frequência, sinais feitos nas costas, com os dedos, para indicar ao colega como deve ser a próxima jogada. No esporte, o objetivo dessa tática é manter em segredo a estratégia de ataque, de modo a pegar o adversário de surpresa.

Na cabine, os intérpretes também se comunicam sem palavras. No microfone, traduzem apenas o que está sendo dito pelos palestrantes; qualquer outra mensagem entre eles não deve ser ouvida pela plateia. Os tradutores recorrem a mensagens escritas num pedaço de papel, recados falados apenas com os lábios (sem produzir som), a gestos e ao botão mute do console de som, que permite “cortar” os microfones dos tradutores por alguns segundos. Os concabinos, como são conhecidas as duplas no universo da interpretação, precisam estar atentos um ao outro. Assim, um intérprete pode avisar ao colega que há um problema no som, que está na hora do revezamento ou que precisa de ajuda com alguma palavra ou expressão espinhosa surgida ao longo do caminho.

Isso nos leva a mais uma semelhança entre o vôlei de praia e a tradução simultânea. Com grande frequência, o intérprete que está em silêncio auxilia o colega diante de uma armadilha linguística inesperada. Ao perceber que o palestrante usou um termo complexo ou de difícil tradução, ele rapidamente pesquisa (na internet, num glossário ou dicionário) e escreve num papel uma sugestão para o concabino. Assim como no vôlei, este é o momento em que um jogador levanta e o outro corta: cabe ao intérprete que está calado colocar a bola na posição certa (descobrindo a tradução correta) para que o outro dê um toque preciso e use a expressão exata.

Na Olimpíada de Tóquio, a dupla de brasileiras Ágatha e Duda começaram a temporada como favoritas ao ouro no vôlei de praia feminino, mas foram eliminadas nas oitavas-de-final. Já nas cabines, a Vox está sempre pronta para a próxima partida: a tradução simultânea é, definitivamente, a nossa praia.

02 Ago / 2021

As Olimpíadas e a interpretação: Do esporte para a cabine, parte 3

O terceiro texto de nossa série sobre as Olimpíadas trata de um esporte muito famoso, divertido, dominado pelos chineses e adorado pelos amadores: o tênis de mesa, mais conhecido como pingue-pongue.

Para traçar uma linha entre o tênis de mesa e a tradução simultânea, vamos pensar numa situação que ocorre na maioria dos congressos e convenções: a sessão de perguntas e respostas, como aquela bolinha que vai e vem.

Depois de uma apresentação, é comum que os palestrantes reservem um tempo para esclarecer as dúvidas e ouvir os comentários da plateia. Em conferências internacionais, perguntas e respostas costumam ser feitas em dois idiomas diferentes – às vezes até mais. Essa dinâmica representa um grande desafio para os intérpretes, que precisam agir como verdadeiros medalhistas do tênis de mesa.

A metáfora, aqui, é mais ou menos a seguinte: um integrante da plateia saca a bola e faz a pergunta em seu idioma – digamos que seja português. O intérprete tem que estar pronto para rebater com rapidez e precisão, fazendo sem demora uma tradução correta e compreensível para o idioma do palestrante (no nosso exemplo, essa língua será o francês). O especialista então devolve a bola, respondendo em francês, e o intérprete dá mais uma raquetada linguística, traduzindo com agilidade para o português.

O pingue-pongue ilustra a diferença entre a tradução simultânea de uma palestra mais longa, em que uma única pessoa fala sem interrupção por vários minutos ou horas, e a interpretação de perguntas e respostas, quando há um bate-e-volta de réplicas e tréplicas – e por vezes debates acalorados.

Na primeira situação, o intérprete pode, e deve, esperar alguns segundos antes de começar a traduzir. Isso permite que ele escute um pouco mais do discurso original, entenda o sentido do que está sendo dito (já que o sentido é mais importante do que palavras individuais) e produza uma tradução coerente e estruturada. Na hora do pingue-pongue, porém, o profissional que está na cabine não pode se dar ao luxo de esperar muito: ele precisa seguir de perto as perguntas e respostas, para que não haja atrasos ou silêncios prolongados. O objetivo é que a conversa se assemelhe ao máximo com um diálogo travado na mesma língua. Essa característica fica ainda mais evidente em pequenas reuniões ou workshops, com grupos menores, formados por pessoas de diferentes nacionalidades. Nessas situações, utiliza-se o equipamento portátil de tradução simultânea, e não a cabine. E os participantes do encontro conversam como se estivessem falando um único idioma, num vai e vem contínuo como uma partida de tênis de mesa.

Diante disso, é preciso estar num estado de atenção permanente, pronto para agir: assim que a bola for lançada em português, o intérprete terá de rebater em francês, ou inglês, ou espanhol… E, à semelhança de um bom tenista de mesa – de preferência um craque vindo de Pequim ou Xangai –, um bom intérprete deve saber devolver todos os tipos de bola: as que vêm fáceis (perguntas ou comentários bem estruturados, com sentido e linha de raciocínio claros), as que vêm “tortas” (uma fala confusa, cheia de digressões, frases sem começo, meio ou fim), e as cortadas traiçoeiras (uma observação polêmica, uma crítica capaz de aborrecer o interlocutor, um trocadilho ou piada de difícil tradução).

Para compreender a analogia – e, acima de tudo, para assistir a um show de técnica, velocidade e precisão –, confira os melhores trechos de partidas de tênis de mesa nos Jogos Olímpicos, sempre protagonizados por (adivinhe?) atletas chineses.

Informação esportiva: em Tóquio, estão em jogo cinco medalhas de ouro nessa modalidade – três por equipes e duas individuais. Os chineses são favoritos a levar todas.

26 Jul / 2021

As Olimpíadas e a interpretação: Do esporte para a cabine, parte 2

Neste segundo texto da série “As Olimpíadas e a Interpretação”, vamos falar de uma modalidade esportiva pouco conhecida, embora seja uma das mais antigas (à semelhança da interpretação, que ocorre desde tempos imemoriais): o tiro com arco.

A prática tem milênios de história, e surgiu para ser usada na caça e na guerra. Passou a ser adotada como esporte na Inglaterra do século XVI, estreou nos Jogos de 1900, em Paris, e foi uma das primeiras categorias a permitir a participação de mulheres.

Vamos usar seu nome popular – “arco e flecha” – para fazer uma analogia com um assunto de grande importância para a interpretação de conferências: a terminologia.

Naturalmente, o intérprete sempre deseja ter, na ponta da língua, a palavra exata para traduzir um determinado termo técnico ou uma expressão idiomática. Assim como um arqueiro, o intérprete segue numa busca constante para acertar a flecha no centro do alvo – na mosca!

Ocorre que a tradução simultânea tem uma natureza ágil e imediata. O intérprete dispõe de poucos segundos para pensar em soluções, e nem sempre esse breve intervalo permite procurar (na própria memória, num glossário previamente preparado, num dicionário ou na internet) o termo perfeito para cada situação. Nesse sentido (e em tantos outros), a interpretação é bem diferente da tradução escrita, que permite ao tradutor pesquisar longamente, experimentar diferentes alternativas na frase e até voltar atrás em suas escolhas.

O intérprete depende, portanto, de conhecimentos prévios, da própria experiência, de uma bela dose de jogo de cintura e da preciosa ajuda do colega de cabine para chegar o mais perto possível da tradução ideal.

Um exemplo: se um palestrante britânico, num congresso sobre esportes olímpicos, usa a palavra archery, o ideal é que o intérprete diga o nome oficial da modalidade em português – “tiro com arco”. Na falta dele, e diante da limitação de tempo, o intérprete poderá recorrer a várias alternativas.

Se em vez de archery o tradutor disser “uma modalidade esportiva olímpica” (usando o que os linguistas chamam de hiperônimo, um vocábulo mais genérico em relação a uma palavra de sentido mais exato), terá transmitido a mensagem de maneira bastante vaga: a “flecha terminológica” irá atingir a faixa mais externa do círculo. Se disser “um esporte em que o atleta tenta acertar uma flecha no alvo” (fazendo uma paráfrase, ou seja, oferecendo uma explicação com outras palavras), terá sido um pouco mais preciso. Caso use o termo “arco e flecha” (um sinônimo, porém em registro mais popular), estará quase lá. Mas se cravar “tiro com arco”, terá a precisão de um arqueiro que atinge o 10 do círculo central.

E o que os intérpretes fazem para ter cada vez mais palavras e expressões corretas gravadas na memória? Estudam, leem e pesquisam sem cessar. O intérprete está sempre garimpando palavras que podem ser úteis na cabine: quando lê jornais e revistas (em mais de um idioma), quando assiste a filmes e documentários, quando conversa com amigos que exercem diferentes profissões… Tudo pode ser uma fonte de termos valiosos para a tradução simultânea.

E, assim como um arqueiro de nível olímpico treina incansavelmente durante horas e dias, o intérprete profissional também dedica muito tempo à preparação para cada evento. Se for traduzir um congresso de ortopedia, irá ler textos especializados sobre o assunto, nas duas línguas da conferência; assistir a vídeos e aulas online; conversar com especialistas e preparar extensos glossários. Se o tema da conferência for engenharia de túneis, exportação de minério ou cinema contemporâneo francês, o processo de preparação será o mesmo.

Todas essas palavras, termos e conhecimentos vão para o “HD” do intérprete, e a experiência acumulada ao longo dos anos aumenta a chance do profissional acertar o centro do alvo. Segundo o pesquisador alemão Klaus-Dirk Schmitz, professor da Universidade de Colônia e especialista em estudos terminológicos, ainda não existem ferramentas tecnológicas de busca adaptadas à velocidade exigida na cabine (com frequência, não há tempo nem para procurar no Google). Daí a importância capital da preparação prévia.

(E aqui vale abrir um parêntese: justamente por isso os intérpretes não cobram por hora, conforme muita gente acredita. O trabalho de tradução simultânea não se resume às horas ou dias de um determinado congresso ou palestra. Começa bem antes, na etapa de estudo, que quase sempre dura mais do que a conferência propriamente dita.)

Resumindo: os intérpretes são arqueiros das palavras. E costumam ter boa mira!

19 Jul / 2021

As Olimpíadas e a interpretação: Do esporte para a cabine

Há uma modalidade olímpica que tem o mesmo nome de um tipo de tradução simultânea: o relay, em inglês – a famosa prova de revezamento. Embora ela exista tanto no atletismo quanto na natação, aqui nós vamos falar das pistas, e não das piscinas. Nas Olimpíadas, o relay é a corrida em que quatro atletas de uma mesma equipe correm 100 (ou 400) metros cada um, passando o bastão para o companheiro à frente ao final de cada trecho.

Esse esporte permite fazer duas analogias com o universo da interpretação de conferências.

A primeira diz respeito à interpretação em relay (ou “relê”, como é conhecida entre os intérpretes brasileiros). Na tradução simultânea, o relay ocorre em eventos com três ou mais idiomas oficiais. Tomemos como exemplo uma situação comum em conferências realizadas no Brasil: um congresso com palestrantes nacionais, americanos e de língua espanhola (argentinos, chilenos, mexicanos, etc.). Nesse cenário, haverá uma cabine para cada idioma estrangeiro – na nossa hipótese, uma cabine fazendo a tradução entre português e inglês, outra trabalhando entre português e espanhol. Assim, quando o congressista brasileiro falar português, o discurso será traduzido para espanhol e inglês pelas respectivas cabines.

Mas o que acontece quando o palestrante espanhol sobe ao palco? O que farão os intérpretes de inglês (que falam também português, mas não são perfeitamente fluentes em espanhol)? E quando discursa o palestrante americano? Como vão trabalhar os intérpretes de espanhol, que têm vastos conhecimentos de português, mas não contam com inglês como língua de trabalho?

Nesse momento, entra em cena o relay da interpretação de conferências. O português é a língua comum – o “bastão” que uma cabine passa para a outra, assim como no atletismo. O palestrante fala espanhol, e a cabine de espanhol traduz para o português; os intérpretes da cabine ao lado escutam essa versão em português e traduzem tudo para o inglês. O mesmo ocorre, em sentido contrário, quando o conferencista fala inglês. Dessa forma, os três idiomas estão permanentemente contemplados, mesmo que nem todos os intérpretes falem fluentemente as três línguas.

No exemplo acima, a cabine de espanhol tem responsabilidade dobrada: produzir um discurso correto e bem estruturado em português tanto para os brasileiros da plateia quanto para a cabine vizinha, que dependerá desse discurso para fazer a tradução simultânea para o inglês. Na prova de relay também é assim: é necessário passar o bastão com segurança e firmeza para o atleta da frente, sem deixar cair e sem perder o ritmo, para que toda a equipe siga em frente rumo à linha de chegada. Os atletas jamaicanos – como a lenda do atletismo Usain Bolt, na foto acima – são craques nessa coreografia de precisão e alta velocidade.

Esta é a primeira metáfora possível entre a prova de revezamento e a interpretação. A segunda se aplica a qualquer circunstância em que dois intérpretes trabalham juntos – a rigor, qualquer evento com mais de uma hora de duração. Isso porque o alto grau de concentração exigido pela tradução simultânea determina que os intérpretes trabalhem em duplas nas palestras com mais de 60 minutos (mesmo que o evento tenha apenas dois idiomas oficiais e uma única cabine).

Nesses casos, os intérpretes se revezam a cada 20 ou 30 minutos, para que o esforço de atenção elevada e o cansaço de falar e ouvir ao mesmo tempo (em duas línguas diferentes!) não prejudiquem a qualidade do trabalho. Aqui, também, os tradutores devem “passar o bastão” um para o outro, enquanto o palestrante fala, no meio da apresentação. E será igualmente importante ter a sintonia de uma boa equipe de atletas de relay: escolher o melhor momento para fazer a troca, a hora exata de permitir que o colega assuma o microfone sem “deixar o bastão cair” – sem solavancos, sem interromper uma frase no meio do caminho, da maneira mais suave e elegante possível.

Pronto: agora você já sabe o que um intérprete quer dizer quando fala em relay ou pensa em “passar o bastão”.

12 Jul / 2021

Vai se apresentar num evento (remoto ou presencial) com tradução simultânea? Não deixe de ler este guia

Se você vai dar uma palestra num evento (remoto ou presencial) com tradução simultânea, as dicas reunidas neste brevíssimo guia organizado pela fundação catalã Doctor Antoni Esteve são curtas, diretas, claras e bem explicadas. Antes de mais nada, é importante lembrar: graças ao trabalho do intérprete, o público que não fala sua língua vai compreender e acompanhar o que você está dizendo. Por isso essa parceria é fundamental, e colaborar com o profissional responsável pela tradução simultânea é, acima de tudo, do interesse do próprio orador.

A Fundação Doctor Antoni Esteve divulgou as orientações (disponíveis em espanhol, inglês e, é claro, catalão) pensando sobretudo em palestrantes convidados para congressos na área médica e científica, na qual a entidade atua. Mas as sugestões valem para apresentações em qualquer área: economia, política, tecnologia da informação, recursos humanos, direito e por aí vai. São atitudes simples, como enviar com antecedência para os intérpretes o material que será exibido na apresentação (para que os tradutores possam estudar e se preparar antes do evento); esclarecer o significado de siglas e abreviações (que podem ser velhas conhecidas do palestrante, mas não necessariamente do intérprete ou do público estrangeiro); não se preocupar com a confidencialidade (o sigilo do conteúdo é um princípio ético quase religioso da interpretação de conferências, à semelhança do que ocorre na relação médico/paciente ou advogado/cliente); falar na língua materna e evitar fazer o discurso num segundo idioma (os intérpretes estão lá justamente para que cada um se expresse com segurança e conforto, sem se preocupar com questões linguísticas – trabalho que cabe ao profissional de tradução).

Embora algumas dicas sejam específicas para eventos com interpretação, muitas valem para qualquer ocasião – mesmo quando todos os participantes falam um único idioma. Alguns exemplos: respeitar o tempo designado para a sua fala (atrasos atrapalham o andamento do evento, com ou sem tradução); evitar ler textos longos (palestras lidas têm um risco maior de serem maçantes para a plateia, o que significa perder a atenção do público); e até coisas aparentemente prosaicas como… respirar! É claro que um palestrante “ligado no 220”, que fale na velocidade da luz, complica a vida dos intérpretes – que, mesmo assim, estão preparados e treinados para lidar com essas situações. Mas fazer uma apresentação corrida e atropelada pode ser confuso até para conterrâneos que compreendam perfeitamente a língua do orador.

Finalmente, o guia traz orientações básicas para palestras feitas pela internet, em webinars e lives – também aplicáveis a transmissões sem interpretação. São medidas simples, que fazem uma tremenda diferença: garantir uma boa conexão (se possível cabeada) para evitar que a imagem congele ou que a internet caia no meio da sua apresentação; manter o microfone no mudo quando não estiver falando; usar fones de ouvido com fio e microfone embutido (por mais práticos e discretos que sejam, os fones wireless ou do tipo “air pods” têm qualidade de som inferior para quem escuta o que você fala).

Recomendo a leitura.

Texto de Beatriz Velloso.

05 Jul / 2021

Juntos e shallow now! Versões e traduções no pop brasileiro

Divertida esta reportagem da Folha sobre as versões brasileiras de hits em inglês – ou em francês, italiano, espanhol. Faz a gente lembrar que a tradução (mesmo quando fica capenga) é parte da nossa vida. Eu, por exemplo, me peguei cantarolando uma música que não está citada no texto: O Astronauta de Mármore, releitura do Nenhum de Nós para Starman do David Bowie (aquela em que o verso “There’s a starman waiting in the sky” virava “Sempre estar láááá e ver ele voltaaaaar”). Pronto, entreguei minha idade.

Lembrei também de um episódio contado por Ruy Castro no livro Chega de Saudade. Tom Jobim detestava as versões que o letrista americano Norman Gimbel fazia de suas canções para o inglês (muitas delas lindamente cantadas por Frank Sinatra). “Inútil Paisagem”, por exemplo – que no original fala “Mas pra que / Pra que tanto céu / Pra que tanto mar” -, foi transplantada para um cenário de inverno rigoroso: “There’s no use / Of a moonlight glow / Or the peaks where winter snows”. Gaiato que era, Tom se vingou de Gimbel sapecando nele o apelido de Norman Bengell, numa referência à atriz Norma Bengell, musa do cinema brasileiro da época. Agora, na era das redes sociais, os fãs de Lady Gaga não perdoaram a versão troncha de Paula Fernandes e Luan Santana – e fizeram bombar a hashtag #morreumaestrela. Atire a primeira pedra quem conseguir não ficar com esse refrão-chiclete grudado na cabeça.

Texto de Beatriz Velloso.