10 Jun, 2018

10 Jun, 2018

Tá no filooooó! – Comemorar um gol e traduzir uma palestra: o que essas duas coisas têm em comum?

Viena, Áustria. Estádio Ernst Happel. Último amistoso do Brasil antes da estreia no Mundial da Rússia. Gabriel Jesus faz um gol e, na sequência, um gesto, como se simulasse uma ligação telefônica, homenagem à mãe, para quem, desde pequeno, tem o costume de ligar para dizer que está bem.

Os rituais de comemoração dos gols, e a respectiva especulação e palpites da torcida sobre seu significado, são um capítulo à parte no mundo do futebol – e guardam também uma relação com o trabalho dos intérpretes de conferência, como mostraremos mais adiante.

Há rituais clássicos, como o de Bebeto, na Copa de 1994, nos Estados Unidos, no jogo das quartas de final contra a Holanda, em que fez movimentos como se embalasse um bebê. Mazinho e Romário engrossaram o coro e comemoraram junto o nascimento do filho do craque. O gesto, aliás, passou a ser usado por vários outros jogadores como homenagem a seus rebentos recém nascidos.

Gerard Piqué, zagueiro do Barcelona, cruza os braços e faz um número dois com cada mão, em referência à data de aniversário da mulher, a cantora Shakira, nascida no mesmo dia que ele. O uruguaio Luis Suárez beija três dedos em homenagem aos dois filhos e a mulher. Sobre sua compulsão por morder os adversários em campo a gente fala outro dia…

Acontece que a CBF não acha assim tanta graça nas tais comemorações dos jogadores. Certas manifestações já não são permitidas, como tirar a camisa, cobrir a cabeça ou subir para comemorar com a rapaziada na arquibancada. Neymar não leu a última atualização do manual da Fifa e teve que engolir um cartão amarelo ao comemorar o segundo gol do Brasil no amistoso de hoje de manhã. Phillipe Coutinho, mais comportado, celebrou o terceiro gol da seleção brasileira com um abraço fraterno nos companheiros e um sinal da cruz. Placar final: 3×0.

Mas não são só as torcidas que se divertem interpretando gestos de grandes craques. E nem só de palavras vivem os intérpretes. Os gestos e a expressão corporal são elementos importantíssimos para o entendimento de um discurso. Intérpretes fazem leitura labial. Leem nas entrelinhas. Ver o orador em ação nos permite dar o tom correto de uma frase, entender se se trata de uma simples observação ou de uma exclamação; uma pergunta retórica ou indagação de fato; uma ironia. Há gestos, inclusive, que substituem uma frase inteira. Ao vê-los, o intérprete pode não reproduzi-los para o público, mas encontrará a frase certa para explicá-los.

Outro dia, interpretando um curso prático de ortodontia, o médico usava os braços e as mãos o tempo todo para indicar os movimentos que deveriam ser feitos para corrigir a posição do dente. Dizia: “Vocês entram por aqui, inclinam o dente assim, depois giram para lá.” Para lá onde? Para a direita? Para a esquerda? Inclinar como? Entrar de que maneira? Todas essas informações foram transmitidas com gestos e não com palavras.

Quando estiver em um evento com tradução simultânea, preste atenção: Muitos intérpretes são tão efusivos em seu gestual quanto os oradores que traduzem. Inclusive, incorporar quem se interpreta, ou seja, concentrar-se e procurar se colocar no lugar do palestrante, é um recurso usado por esses profissionais para absorver e transmitir com maior riqueza de detalhes as nuances da fala.

Não raro, por questões de espaço, as cabines de tradução simultânea são instaladas em locais em que o intérprete não tem a visão direta do palco, às vezes até fora da sala, casos em que muitas vezes se instala um monitor dentro da cabine, para que os intérpretes de conferência possam ver seus oradores. Cada vez é mais comum interpretar de forma remota, frequentemente sem visão alguma de quem fala.

A tradução simultânea e o futebol não são tão diferentes. A gente treina, sofre, se emociona, sua a camisa, mas se diverte!

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