02 Mai, 2018

Como xingar o juiz sem que ele saiba que está sendo xingado

02 Mai, 2018

Qualquer pessoa que tenha estudado e aprendido uma segunda língua sabe muito bem: por mais que a gente domine um novo idioma, na hora de bater boca, xingar e comprar uma boa briga, nosso instinto é soltar impropérios na língua materna. Esse reflexo, que emerge quando estamos com os nervos à flor da pele, tem causado uma situação curiosa nesta temporada de basquete da NBA: o uso do multilinguismo para xingar o juiz (ou, com frequência, a mãe dele).

Numa reportagem publicada esta semana [https://www.nytimes.com/2018/04/30/sports/nba-referees-swearing.html], o jornal The New York Times conta que nunca houve tantos jogadores estrangeiros atuando na liga profissional do basquete americano. Ao todo, 62 atletas são imigrantes, e representam 33 países. Isso traz um caráter globalizado e uma grande riqueza cultural para a NBA. Por outro lado, impõe aos árbitros um desafio inusitado: saber quando estão sendo xingados, diante de uma saraivada de impropérios que podem vir em mais de quinze idiomas. Embora os jogadores contestem as decisões dos juízes ao longo de toda a partida, o árbitro tem o direito de advertir e até expulsar o jogador quando a reclamação ultrapassa os limites do bom senso e vira desrespeito. Mas como identificar essas situações se as agressões verbais podem vir em espanhol, português, francês, croata, chinês, russo, polonês e por aí vai?

“Pelo tom de voz e postura do jogador, sabemos que estamos sendo xingados mesmo sem entender as palavras”, explica Joe Forte, ex-juiz da NBA. “No entanto, quando não temos certeza absoluta do que está sendo dito, não podemos fazer nada”. Entre os atletas, as opiniões são divididas: há os que não resistem ao instinto de mandar o juiz %$#@&* na língua materna, mesmo que o árbitro não compreenda, e há quem defenda que, por uma questão de cortesia (por mais paradoxal que possa parecer), o alvo dos xingamentos deve entender que está sendo atingido. Ersan Ilyasova, nascido na Turquia filho de pais russos, joga pelo Philadelphia 76ers e é um representante da primeira turma: “quando a gente está nervoso, não pensa no que vai dizer. As palavras simplesmente saem pela boca”. Ilyasova vive nos Estados Unidos há tempo suficiente para falar bem o inglês – mas, na hora do “vamos ver”, ele xinga o árbitro em russo (idioma que ouvia já na barriga da mãe). Já Marcin Gortat, polonês que defende o Washington Wizards, segue a segunda linha: “é muita covardia xingar o juiz numa língua que ele não domina. Quando estou com raiva e quero irritar o cara, falo inglês – e depois arco com as consequências”.

Nesta situação, assim como em tantas outras na vida, quem fala mais de um idioma está em vantagem. Bob Delaney, juiz aposentado da NBA, estudou francês e latim na escola. Graças a esses conhecimentos rudimentares, ele era capaz de identificar alguns termos usados por jogadores brasileiros, argentinos e, é claro, franceses. E pode estabelecer também uma regra básica no campo de batalha das quadras de basquete: o uso de adjetivos pouco lisonjeiros era, quase sempre, permitido; já os substantivos, em geral mais pesados, eram terminantemente proibidos.

Fica então o convite: para você, que como nós da VOX é fã de esportes e apaixonado por idiomas, sintonize nas partidas da NBA pela TV a cabo, divirta-se com as enterradas dos atletas e tente identificar aquele momento em que o jogador manda lembranças para a mãe do juiz – enchendo a boca com um sonoro palavrão proferido em tcheco.

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