08 Mar, 2018

Multitarefas ou multilíngues: Por que as mulheres dominam o mundo da interpretação?

 

A cada 8 de março, o mundo inteiro chama a atenção para as desigualdades de gênero, violência e conquista de direitos das mulheres. A data foi comemorada pela primeira vez nos Estados Unidos em 1908, mas ganhou destaque mesmo com as manifestações das russas por melhores condições de vida e trabalho na Primeira Guerra Mundial, em 1917. Por muito tempo a data permaneceu esquecida e acabou sendo resgatada com o movimento feminista, nos anos 60. A Organização das Nações Unidas só reconheceu o Dia Internacional da Mulher em 1977.

Às vésperas do dia 8 de março, na Cerimônia do Oscar, em que apenas 11 mulheres foram indicadas, a vencedora da categoria de melhor atriz, Frances McDormand, fez todas as mulheres do auditório se levantarem com um discurso provocador em que expôs a diferença de gênero na indústria cinematográfica.

Costuma-se apontar a falta de equidade em áreas como a ciência ou em posições de poder, mas na literatura o número de mulheres que têm suas obras reconhecidas é ainda menor. O escasso reconhecimento afeta a atenção dada por editoras e leitores à literatura produzida por mulheres, resultando em um menor número de livros publicados e traduzidos. Apenas 14 mulheres ganharam o Prêmio Nobel de Literatura desde a primeira edição, em 1901 e, no Brasil, o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da nossa literatura, foi entregue a 12 mulheres desde 1959, na categoria romance.

Em 2014, a blogueira israelense Meytal Radzinski, percebendo a lacuna de títulos traduzidos por mulheres, criou o projeto Women in Translation, que lançou luz sobre o desequilíbrio de gênero na tradução literária. As estatísticas que levantou nesse mesmo ano mostraram que apenas 30% da literatura traduzida para o inglês na última década havia sido escrita por mulheres. Em seu blog, readeratlarge.com, dedicou um mês inteiro à promoção de livros traduzidos por representantes do sexo feminino. Meytal passou todo o mês de janeiro de 2014 identificando títulos traduzidos por mulheres e os três meses seguintes, lendo tudo que encontrou. O blog vale a visita.

Se em áreas que vão da tecnologia ao cinema os homens ainda estão em evidência, na tradução simultânea quem domina são as mulheres. Inicialmente marcada pelo sexo masculino, a profissão tem hoje nas mulheres suas grandes representantes. O Ministério do Trabalho dos Estados Unidos divulga o percentual de homens e mulheres por categoria de serviço e entre tradutores e intérpretes a proporção é de 32% de homens para 68% de mulheres.

No  Brasil, a filiação às entidades de classe confirma essa realidade. A APIC – Associação Profissional de Intérpretes de Conferências possui atualmente 109 associadas e 33 associados. No Sintra – Sindicato Nacional dos Tradutores e na Abrates – Associação Brasileira de Tradutores e intérpretes, a discrepância também se mostra presente.

Rachael Ryan, mestre em Tradução de Conferências pela Universidade Nacional da Irlanda, publicou em 2015, no site AIIC – Associação Internacional de Intérpretes de Conferência, a pesquisa que fez com 259 intérpretes do sexo masculino sobre a percepção que tinham sobre o mercado em que atuam, dominado por mulheres. Eles tiveram que responder a duas perguntas, uma delas sobre o que os havia motivado a escolher a profissão. Entre as respostas estavam a remuneração, a flexibilidade, a adrenalina garantida e o meio interessante. Um dado curioso é que muitos afirmaram ter caído na carreira de paraquedas e colocaram o tédio de suas carreiras anteriores como fator determinante para a escolha da tradução simultânea como um novo caminho profissional.

A pesquisadora também perguntou aos intérpretes sobre qual acreditavam ser a razão da discrepância entre o número de homens e mulheres na profissão. A resposta foi atribuída à maior capacidade das mulheres de interpretar e tolerar situações de invisibilidade. Para um dos entrevistados, a habilidade multitarefas das mulheres explicaria o dom para falar e ouvir ao mesmo tempo. Outra constatação do grupo foi que mesmo com a habilidade das mulheres para a área, sentiam-se favorecidos na profissão. Um deles acredita ser muito mais fácil para um intérprete homem ter sucesso na carreira do que uma mulher.

Todas as respostas, no entanto, baseiam-se nas impressões dos respondentes. Vários estudos já demonstraram, por exemplo, que homens e mulheres apresentam a mesma capacidade para realizar tarefas simultaneamente, o que leva a refletir sobre o lugar possivelmente atribuído a elas, justificando muitas vezes a sobrecarga de trabalho. Também é fato que o sexo feminino predomina nas profissões de assistência, funções meio nas quais a tradução simultânea estaria incluída, o que nos leva refletir sobre o porquê de as mulheres normalmente escolherem essa trajetória profissional.

Mas seja qual for o caminho escolhido por elas, que as mulheres possam ter liberdade de escolha e oportunidades para expressarem seu potencial na área que melhor lhes convier. E fica aqui a homenagem da Vox a todas as tradutoras e intérpretes.

Trackback URL: https://voxinterpretes.com.br/2018/03/08/por-que-ha-mais-mulheres-na-traducao-e-interpretacao/trackback/