03 Mar, 2018

E O OSCAR VAI PARA… OS INTÉRPRETES!

03 Mar, 2018

Todo ano é a mesma coisa: chega a temporada de premiações do cinema americano, transmitidas pela TV brasileira com tradução simultânea, e o público leigo no assunto (no assunto interpretação, e não cinema) começa a praticar o esporte de detonar o trabalho dos intérpretes. Seja na mesa do bar ou nas redes sociais, sempre tem alguém para dizer que a tradução simultânea está uma porcaria: “Até eu faria melhor!”, “Qualquer aluno de primeiro ano de escola de inglês sabe mais!” e por aí vai. Já que esse tipo de comentário é inevitável, queremos propor um trato: quem quiser falar mal da interpretação simultânea do Oscar deve, antes de mais nada, entender como funciona. Combinado?

“Ih, que chatice”, você pode estar pensando. “Lá vêm esses intérpretes corporativistas querendo defender a categoria”. É verdade. Nós, intérpretes, gostamos de valorizar nosso trabalho: sabemos como é difícil fazer uma tradução simultânea ao vivo; sabemos que é preciso ter anos de estudo e treinamento, que não basta dominar inglês – ou qualquer que seja o idioma em questão; que são necessárias técnica e experiência para encarar essa empreitada. Resumindo: temos orgulho do que fazemos, e desejamos que nosso trabalho seja reconhecido.

Para começar, aqui vai um resumo do processo neurolinguístico que se passa no cérebro de um intérprete em ação. 1) O tradutor escuta o discurso em um idioma (no caso do Oscar, em inglês); 2) o cérebro processa e decodifica a mensagem; 3) depois, a cachola do intérprete tem dois ou três segundos para bolar uma tradução no que se chama “língua de chegada” – no nosso exemplo, o português; 4) o intérprete fala a tradução num microfone; 5) enquanto fala, o tradutor ou tradutora tem de monitorar o próprio discurso em português, para ter certeza de que está sendo coerente, reproduzindo com precisão as informações do original, mantendo a correção gramatical e usando uma estrutura compreensível.

Ocorre que a cabeça do intérprete realiza todas essas tarefas ao mesmo tempo, o tempo todo – e não uma de cada vez. Isso porque o palestrante (ou o apresentador, no caso do Oscar) não faz pausas para que o tradutor pense em como vai dizer isso ou aquilo em português. O orador vai em frente, e o intérprete também segue adiante – ouvindo uma língua, falando outra e realizando simultaneamente todos esses processos mentais.

A interpretação é tão intrincada que até os neurocientistas se perguntam: como pode um cérebro humano realizar tantas tarefas complexas ao mesmo tempo? Não à toa, o trabalho dos interpretes já foi tema de vários estudos científicos. Um dos mais recentes ocorreu no Laboratório de Cérebro e Linguagem da Universidade de Genebra, na Suíça, sob o comando da neurocientista Narly Golestani. Após realizar a pesquisa, que incluiu exames de ressonância magnética durante sessões de tradução simultânea, ela declarou à BBC britânica: “a linguagem é uma das funções cognitivas mais sofisticadas que existem. No intérprete, essa função vai além, já que duas línguas estão ativas, realizando diversas tarefas concomitantes: audição, compreensão, produção e monitoramento, tudo ao mesmo tempo”. E completou: “várias regiões do cérebro ficam ativas ao mesmo tempo, com grau de exigência elevado”.

Pois bem. Na tradução simultânea do Oscar, essa sinfonia de atividades cerebrais ocorre em condições ainda mais desafiadoras. Uma delas é a enorme pressão de fazer a interpretação na televisão, em rede nacional. Qualquer deslize será testemunhado por milhões de pessoas (em 2016, por exemplo, a cerimônia foi assistida por 32 milhões de espectadores).

Some-se a isso o fato de que o intérprete não está fisicamente próximo às pessoas que vai traduzir, como ocorre normalmente num congresso com tradução simultânea. O tradutor está no Brasil, num estúdio de TV, assistindo à transmissão numa tela, como qualquer outro espectador. Por vezes, ele (ou ela) escuta a voz do apresentador do Oscar enquanto a câmera mostra cenas de reação da plateia, dos indicados a determinada categoria ou mostra trechos de filmes – e não o rosto da pessoa que está falando.

Durante a entrega do prêmio, é comum também que duas ou mais pessoas falem ao mesmo tempo: uma dupla de atores que apresenta uma categoria, a equipe de efeitos especiais que sobe ao palco para receber a estatueta, etc. Nessas horas, pode ser ainda mais difícil compreender o que está sendo dito, já que as vozes se sobrepõem.

Mas a grande armadilha do Oscar está nos trocadilhos, piadas, nomes e referências específicos à sociedade americana e a Hollywood. Eles aparecem aos montes durante a festa. Essas ciladas já foram, inclusive, tema de um divertido vídeo do grupo Porta dos Fundos, que satiriza a tradução simultânea da cerimônia. No esquete, dois atores fazem às vezes de intérpretes: “bom… isso é um trocadilho que não dá para traduzir…” ou “o apresentador está fazendo referência a um programa de televisão que ninguém conhece no Brasil…”.

A despeito dos exageros e equívocos na representação dos tradutores (é natural: trata-se de humor, e não de material didático sobre a profissão), o vídeo é mesmo engraçado. Mas há uma dose de verdade na sátira: muitos jogos de palavras, menções a fofocas locais, trocadilhos com nomes de filmes em inglês simplesmente não têm tradução. E isso não é culpa do intérprete – é resultado das diferenças entre línguas e culturas.

Imagine, fazendo o exercício contrário, que um intérprete americano receba a incumbência de traduzir os desfiles da Marquês de Sapucaí: ele poderia deparar com expressões como “chora, cuíca!”, “olha o breque!” ou “o samba-enredo desse puxador está muito boi com abóbora”. São coisas tão brasileiras, e tão particulares ao universo do carnaval, que nem o tradutor mais competente seria capaz de transmitir toda a carga cultural e o sentido que essas frases têm por aqui – muito menos quando dispõe de poucos segundos para pensar numa solução em inglês.

É evidente que, antes de qualquer trabalho, os intérpretes se preparam muito. No caso do Oscar, é preciso ter na ponta da língua os nomes dos filmes indicados (em inglês e português), de todos os principais atores, diretores, roteiristas, etc., dos convidados que vão entregar as estatuetas – além de estar a par das últimas notícias de Hollywood, dos fuxicos do mundo do cinema, de assuntos correntes dos Estados Unidos (pois certamente haverá piadas e protestos contra Donald Trump, ou referências ao movimento contra o assédio). Isso sem esquecer os conhecimentos sobre as festas e os filmes de edições anteriores, que costumam ser citados. Ou seja: por mais que o intérprete estude e se informe, sempre vai aparecer um nome desconhecido, um improviso inesperado, uma batata quente jogada de súbito no colo do tradutor. “Matar essas bolas no peito”, com categoria, é um dos desafios mais interessantes da profissão.

Antes de encerrar, uma ressalva: como qualquer ser humano, um intérprete pode errar. E às vezes erra mesmo. Acontece com todo mundo. Nosso objetivo é apenas sugerir que esses erros (caso e quando ocorram) sejam tratados numa perspectiva mais ampla, que leve em consideração todos os fatores envolvidos. Queremos mostrar que a avaliação do desempenho do intérprete também pode – e deve – reconhecer as soluções brilhantes, para tantas expressões espinhosas, produzidas em questão de segundos por um profissional da tradução simultânea.

Para terminar, fica nossa homenagem à intérprete Elisabete Hart (1943 – 2007). Durante anos, ela fez a tradução simultânea do Oscar na Rede Globo. Com sua competência, dicção impecável e tranquilidade para enfrentar as arapucas dessa difícil tarefa, Elisabete ajudou a divulgar a profissão junto a milhões de pessoas que assistiram à cerimônia nas décadas de 1980 e 1990. Para muita gente, sua voz tornou-se sinônimo de tradução simultânea – trabalho que ela exerceu com grande técnica e elegância.

Pronto: agora você já sabe tudo o que acontece no cérebro e no entorno de um intérprete que traduz a cerimônia de entrega das estatuetas. Então pegue a pipoca, ligue a televisão e aproveite a festa – com tradução simultânea.

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