04 Ago, 2016

As Olimpíadas e a interpretação: Do esporte para a cabine, 3º capítulo

04 Ago, 2016

O terceiro texto da série “As Olimpíadas e a Interpretação” trata de um esporte muito famoso, divertido, dominado pelos chineses e adorado pelos amadores: o tênis de mesa, mais conhecido como pingue-pongue.

Para traçar uma linha entre o tênis de mesa e a tradução simultânea, vamos pensar numa situação que ocorre na maioria dos congressos e convenções: a sessão de perguntas e respostas, como aquela bolinha que vai e vem.

Depois de uma apresentação, é comum que os palestrantes reservem um tempo para esclarecer as dúvidas e ouvir os comentários da plateia. Em conferências internacionais, perguntas e respostas costumam ser feitas em dois idiomas diferentes – às vezes até mais. Essa dinâmica representa um grande desafio para os intérpretes, que precisam agir como verdadeiros medalhistas do tênis de mesa.

A metáfora, aqui, é mais ou menos a seguinte: um integrante da plateia saca a bola e faz a pergunta em seu idioma – digamos que seja português. O intérprete tem que estar pronto para rebater com rapidez e precisão, fazendo sem demora uma tradução correta e compreensível para o idioma do palestrante (no nosso exemplo, essa língua será o francês). O especialista então devolve a bola, respondendo em francês, e o intérprete dá mais uma raquetada linguística, traduzindo com agilidade para o português.

O pingue-pongue ilustra a diferença entre a tradução simultânea de uma palestra mais longa, em que uma única pessoa fala sem interrupção por vários minutos ou horas, e a interpretação de perguntas e respostas, quando há um bate-e-volta de réplicas e tréplicas – e por vezes debates acalorados.

Na primeira situação, o intérprete pode, e deve, esperar alguns segundos antes de começar a traduzir. Isso permite que ele escute um pouco mais do discurso original, entenda o sentido do que está sendo dito (já que o sentido é mais importante do que palavras individuais) e produza uma tradução coerente e estruturada. Na hora do pingue-pongue, porém, o profissional que está na cabine não pode se dar ao luxo de esperar muito: ele precisa seguir de perto as perguntas e respostas, para que não haja atrasos ou silêncios prolongados. O objetivo é que a conversa se assemelhe ao máximo com um diálogo travado na mesma língua. Essa característica fica ainda mais evidente em pequenas reuniões ou workshops, com grupos menores, formados por pessoas de diferentes nacionalidades. Nessas situações, utiliza-se o equipamento portátil de tradução simultânea, e não a cabine. E os participantes do encontro conversam como se estivessem falando um único idioma, num vai e vem contínuo como uma partida de tênis de mesa.

Diante disso, é preciso estar num estado de atenção permanente, pronto para agir: assim que a bola for lançada em português, o intérprete terá de rebater em francês, ou inglês, ou espanhol… E, à semelhança de um bom tenista de mesa – de preferência um craque vindo de Pequim ou Xangai –, um bom intérprete deve saber devolver todos os tipos de bola: as que vêm fáceis (perguntas ou comentários bem estruturados, com sentido e linha de raciocínio claros), as que vêm “tortas” (uma fala confusa, cheia de digressões, frases sem começo, meio ou fim), e as cortadas traiçoeiras (uma observação polêmica, uma crítica capaz de aborrecer o interlocutor, um trocadilho ou piada de difícil tradução).

Para compreender a analogia – e, acima de tudo, para assistir a um show de técnica, velocidade e precisão –, confira trechos da partida final de tênis de mesa nos Jogos de Londres, em 2012, disputada entre (adivinhe?) dois chineses.

Informação esportiva: no Rio, estão em jogo quatro medalhas de ouro nessa modalidade – duas por equipes e duas individuais (masculino e feminino). Os chineses são favoritos a levar todas.

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