24 Jun, 2016

OS IMPACTOS DO “BREXIT” PARA A TRADUÇÃO SIMULTÂNEA NA UNIÃO EUROPEIA

24 Jun, 2016

A decisão do Reino Unido de deixar a União Europeia (UE), tomada em referendo realizado na quinta, 23, terá profundos impactos políticos, econômicos, sociais e culturais. O primeiro-ministro David Cameron anunciou sua renúncia, e ainda não se sabe ao certo quais serão os efeitos da saída para os cidadãos europeus que vivem e trabalham no Reino Unido – e para os cidadãos britânicos que moram e estão empregados em outros países da Europa.

O voto majoritário pela separação, entretanto, terá consequências também sobre os idiomas falados no bloco, e sobre os intérpretes de conferência que atuam nos organismos da UE. Afinal de contas, há tempos o inglês é usado como língua franca em todos os países da Europa – e, a rigor, do mundo.

Nesse sentido, a saída do Reino Unido criará uma situação peculiar. Os 28 estados-membros passarão a ser 27, e neles o inglês continuará a ser a língua mais falada (considerando aí os cidadãos de outras nacionalidades que têm o idioma como segunda língua). Vale dizer: embora o inglês faça parte da rotina de comunicação dos 450 milhões de habitantes da UE, ele passará a ser o idioma oficial de apenas 5 milhões de moradores do bloco – aqueles que vivem na República da Irlanda (4,5 milhões de pessoas) e em Malta (450 mil habitantes, que também têm o maltês como língua oficial).

No caso dos intérpretes de conferência que trabalham no Parlamento Europeu e em outros organismos da UE, haverá uma encrenca adicional. Desde a fundação do bloco, em 1957 (à época ainda chamado de Comunidade Econômica Europeia), ficou estabelecido que todos os estados-membros teriam seus idiomas reconhecidos como oficiais. Atualmente a União Europeia abarca 24 línguas – e todos os delegados têm o direito de falar no próprio idioma durante cúpulas, reuniões e assembleias multilaterais, exigindo a utilização de tradução simultânea em uma série de combinações linguísticas.

Ocorre que é impossível encontrar intérpretes com todas as combinações de idiomas quando tantas línguas diferentes estão envolvidas. Um intérprete pode até falar alemão, francês e português, mas será incapaz de compreender um delegado sueco, italiano ou húngaro, por exemplo.

Nessas situações, o inglês exerce uma função conhecida entre os intérpretes como “língua volante”: um idioma intermediário, que funciona de ponte entre duas outras línguas. Um exemplo: quando um delegado polonês fala, o intérprete encarregado da tradução simultânea para espanhol pode não ser fluente em polonês. Na sua central de intérprete (a pequena mesa de som que fica dentro das cabines de tradução), ele irá então virar uma chave para ouvir o som da cabine de inglês. Ou seja: o discurso em polonês será traduzido para o inglês, e o intérprete de espanhol usará essa versão como base para fazer a tradução simultânea para os delegados da Espanha. O raciocínio se aplica entre todos os idiomas, quase sempre tendo o inglês como elo de ligação entre uma e outra língua.

Agora, com a decisão de deixar a UE, surge a pergunta: caberá a algum outro idioma o papel de substituir o inglês nessa função? Será que o francês, considerado a língua da diplomacia por excelência até o início do século 20, vai recobrar esse status?

Segundo reportagem publicada recentemente pela revista The Economist, é pouco provável que isso aconteça. Em 2007, um acadêmico francês propôs que seu idioma se tornasse a única língua oficial da união – argumentando que o francês tem uma precisão superior à de outras línguas. A sugestão foi imediatamente descartada, e quase virou motivo de piada.

Curiosamente, o inglês falado na União Europeia é tão influenciado pelas outras línguas do bloco que alguns estudiosos falam até em “euro-inglês” – um idioma em constante transformação, que se apropria de palavras do francês, do espanhol ou do alemão. O “euro-inglês” permite até algumas licenças gramaticais: substantivos usados apenas no singular em inglês, como “information”, começam a ser escutados em alguns organismos da UE com um “s” no plural – como se faz no espanhol ou no português, por exemplo.

Por isso, embora a maioria dos cidadãos do Reino Unido tenha votado em favor do “leave” (alternativa na cédula para os que queriam se desligar da comunidade), a língua inglesa provavelmente irá “remain”, permanecendo amplamente usada e falada num bloco que não terá mais a Inglaterra como integrante.

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