14 Jun, 2016

O intérprete e o nó na garganta

14 Jun, 2016

Esta foto mostra uma plateia repleta de pessoas com fones de ouvido, escutando a tradução simultânea que vem da cabine de interpretação, escondida no fundo da sala. O registro foi feito durante o III Simpósio Internacional de Assistência ao Parto (Siaparto), realizado recentemente em São Paulo com tradução simultânea dos intérpretes da Vox. Durante o congresso, que trata do momento mais emocionante da vida – o nascimento –, os profissionais da interpretação enfrentaram um desafio que vai além de questões semânticas e linguísticas: traduzir sobre um assunto comovente a ponto de quase fazer chorar.

O simpósio sobre parto é apenas um exemplo de uma situação que ocorre algumas vezes na carreira de um intérprete. O assunto a ser traduzido pode ser triste (caso de conferências médicas sobre doenças graves e sem tratamento) ou bonito (caso do seminário sobre o nascimento de um bebê) o suficiente para deixar o intérprete com um nó na garganta.

O que fazer nesse momento? Como equilibrar a responsabilidade profissional de continuar falando, de transmitir a mensagem, ao incontornável fato de que o intérprete, como qualquer ser humano, está sujeito a emoções por vezes difíceis de controlar?

“Quando fiz a tradução simultânea da primeira edição do Seminário de Assistência ao Parto, há três anos, tive vontade de chorar várias vezes”, diz Luciana Carvalho, intérprete e fundadora da Editora Lexema, que já publicou diversos livros sobre parto humanizado. “Com o tempo e a experiência de assistir a tantas palestras sobre o tema, fui aprendendo a ‘domar’ as emoções, embora elas sempre apareçam e façam parte do trabalho”.

Em algumas ocasiões o intérprete também observa, da cabine, a emoção da plateia que escuta a tradução simultânea enquanto assiste à apresentação. “Durante o Siaparto, uma das palestrantes mostrou uma cena especial, em que um bebê com alguns segundos de vida era colocado pela primeira vez no peito da mãe”, conta Lara Moammar, da Vox. “Percebi que algumas pessoas do público estavam com os olhos cheios d´água, e se viravam para a cabine com um olhar de cumplicidade. Naturalmente, a principal responsável por isso era a especialista que estava em cima do palco, compartilhando uma história tão tocante. Mas é bonito pensar que o intérprete estabelece um elo com os espectadores e ajuda a comunicar uma fala comovente”.

Entretanto, nem sempre as emoções sentidas pelo intérprete são fruto de alegria. Em alguns momentos, o profissional da tradução simultânea precisa “se segurar” diante de cenas difíceis e dolorosas. Trabalhar num hospital fazendo a ponte entre um médico e um paciente terminal que não falam o mesmo idioma, ou interpretar, num tribunal, o depoimento de uma mulher imigrante que relata ao juiz uma situação de violência doméstica: situações como essas exigem do intérprete um alto grau de controle emocional.

Um estudo realizado pela Universidade Brunel, em Londres, comprovou que os tradutores presentes a situações como essas continuam sob o impacto das emoções muito tempo depois que a interpretação propriamente dita acaba. Responsável pela pesquisa, a professora Karen Baistow, da Faculdade de Serviço Social, acrescenta que os intérpretes profissionais recebem ampla formação para enfrentar os desafios linguísticos e as questões de comunicação envolvidas no processo complexo da tradução simultânea – mas lamenta que as escolas de interpretação não ofereçam uma orientação que auxilie os tradutores a enfrentar esse tipo de estresse psicológico.

De todo modo, uma coisa é certa sobre a tradução simultânea: é um trabalho emocionante – literalmente. Ou, com a devida licença de Tom Jobim, vale dizer que “no peito de um intérprete de conferências também bate um coração”.

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