07 Jun, 2016

Intérprete e repórter morrem no Afeganistão

07 Jun, 2016

O intérprete afegão Zabihullah Tamanna foi morto no último domingo, 5 de junho, em seu país natal. Ao lado de David Gilkey, repórter americano da NPR (rede pública de rádio dos Estados Unidos), ele ajudava na produção de uma reportagem que acompanhava uma unidade do exército afegão. Os dois estavam na província de Helmand, a bordo de um veículo militar blindado, quando foram atingidos por diversas explosões, numa aparente emboscada. Os corpos das duas vítimas foram levados de helicóptero ao acampamento militar de Shorab, e recebidos como heróis de guerra por dezenas de soldados americanos.

Gilkey tinha 50 anos e vasta experiência na cobertura de conflitos. Tamanna, que além de trabalhar como intérprete para a NPR era também jornalista, tinha 38 anos, e deixa mulher e três filhos.

À semelhança de muitos intérpretes ativos em zonas de conflito, o afegão não tinha formação na área de tradução simultânea. Seus conhecimentos nativos de pachto e dari (idiomas oficiais do Afeganistão), a desenvoltura em inglês e o jogo de cintura que adquiriu trabalhando como jornalista levaram a NPR a contratá-lo como intérprete freelance. Tamanna tinha ainda outra característica comum aos intérpretes de guerra: ele fazia de tudo. Traduzia entrevistas, conseguia credenciais de acesso para os jornalistas, encontrava moradores locais que poderiam ser fontes de informação e fotografava.

“As cenas registradas por Zabi mostravam que sua compaixão pelo ser humano permanecia intacta”, escreveu Philip Reeves, correspondente da NPR no Afeganistão, num texto em homenagem ao amigo. “Isso é algo difícil de conseguir em regiões conflagradas. A guerra tem uma grande capacidade de anestesiar as pessoas. A violência e o perigo são capazes de corroer nossa humanidade”.

A virtude descrita por Reeves certamente ajudou Tamanna em seu trabalho como intérprete. Embora a neutralidade seja um dos pilares fundamentais do trabalho de tradução simultânea, a capacidade de colocar-se no lugar do outro faz com que o intérprete consiga compreender e transmitir as nuances e intenções da pessoa traduzida.

A Vox, que já havia chamado atenção para o drama dos intérpretes de guerra num texto publicado em março deste ano, lamenta a morte de mais um tradutor no cumprimento de seu trabalho.

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