20 Abr, 2016

Ser ou não ser, eis a questão: 400 anos de Shakespeare, Cervantes e desafios de tradução

20 Abr, 2016

Em 1995, a UNESCO declarou 23 de abril como “Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais”. A data foi escolhida com uma justificativa incontestável: tanto William Shakespeare quanto Miguel de Cervantes teriam morrido nessa data, no mesmo ano de 1616. Em 2016, portanto, o dia 23 de abril marca os 400 anos de morte do dramaturgo inglês e do escritor espanhol.

De 1995 para cá algumas pesquisas puseram em dúvida a incrível coincidência envolvendo o falecimento dos dois pesos-pesados da literatura mundial. De um lado, estudiosos da vida de Shakespeare argumentam que a diferença entre os calendários gregoriano e juliano empurraria a morte do Bardo de  Stratford-upon-Avon para 3 de maio de 1616 (aos 52 anos); já pesquisadores de Cervantes sustentam que ele morreu no dia 22, e foi enterrado em 23 de abril (aos 69 anos). Para efeitos comemorativos, porém, a polêmica é de importância menor: estamos em plena temporada de celebração da obra desses gênios das letras.

Aqui no site da Vox, gostaríamos de falar sobre o desafio representado pela tarefa de traduzir Shakespeare e Cervantes.

No caso do primeiro, as dificuldades começam pelo fato de que o próprio Shakespeare não se preocupou em imprimir ou registrar suas peças por escrito: os textos que chegaram a nós são uma mistura de cópias “piratas”, feitas desde meados do século XVII, e reconstituições escritas por pessoas envolvidas nas montagens originais – principalmente atores. Além disso, os tradutores sempre se veem diante da seguinte dúvida: Shakespeare deve ser traduzido para fins de leitura ou de interpretação em cena? Cada caminho leva, evidentemente, a estradas diferentes.

Por ter sido contemporâneo do dramaturgo inglês, Cervantes impõe alguns desafios comuns aos autores do período, na hora de traduzi-los para os dias de hoje. A linguagem do século 17, que agora nos parece tão formal e empolada, era, na verdade, a linguagem falada pelo povo do reino de Castela – mais tarde unificado a outros reinos, formando a Espanha que conhecemos. Aos tradutores da atualidade cabe, portanto, a delicada tarefa de transpor o espanhol de 400 anos atrás para o modo de falar do século 21. (Uma curiosidade: alguns dramaturgos americanos estão traduzindo Shakespeare do inglês para… o inglês! Do idioma arcaico dos tempos do Globe Theatre para a língua atual.)

Além disso, no caso de textos e traduções que sobrevivem ao passar dos séculos, o trabalho do tradutor tem impactos que duram gerações – literalmente. Em entrevista recente, a tradutora americana Edith Grossman (que verteu Dom Quixote para o inglês) dá um exemplo desse efeito-cascata. Ela conta que William Faulkner (1897 – 1962), escritor americano ganhador do Nobel, tinha em Cervantes uma de suas grandes influências literárias – exercida, é claro, pelas traduções para o inglês que chegaram às mãos de Faulkner. O colombiano Gabriel García Márquez (1927 – 2014), por sua vez, sempre declarou sua admiração por Faulkner – cuja obra conheceu em traduções do inglês para o espanhol. Dessa forma, um autor exerce influência sobre o outro, num interminável ciclo de admiração que tem a tradução como combustível. “Costumo dizer que a tradução é o cimento que sustenta as estruturas da civilização literária”, afirma Grossman.

Shakespeare e Cervantes são dois excelentes autores para demonstrar a máxima de que “existem tantas traduções quanto tradutores”. A cada nova versão, surge um novo texto, que traz novas nuances, descobre novos sentidos e elege novos termos e soluções.

Destacamos um trecho de Shakespeare e outro de Cervantes, no original e em duas traduções diferentes.

Em primeiro lugar, temos o famoso monólogo de Hamlet, na tradução da grande crítica teatral e tradutora Barbara Heliodora (1923 – 2015) e na versão de Millôr Fernandes (1923 – 2012), também especialista na obra do dramaturgo inglês. Vale ressaltar que Barbara Heliodora decidiu se libertar de uma frase consagrada (“eis a questão”) e optar por uma alternativa mais informal: “essa é que é a questão”.

Em seguida, temos o clássico trecho dos moinhos de vento de Dom Quixote, nas traduções de Ernani Ssó e Sergio Molina. Ali, aspectos como colocações pronominais, tempos verbais e palavras específicas (para um, “ventura”; para o outro, “acaso”) conferem diferentes matizes e deixam mais ou menos formal cada um dos textos em português.

O breve exercício aqui proposto, de cotejar diferentes versões, demonstra o caráter obstinado e minucioso da arte da tradução: cada palavra é burilada, cada frase é pensada e repensada inúmeras vezes. É esta a dor e a delícia do trabalho do tradutor – que, quando exitoso, representa também o deleite de gerações de leitores.

 

Hamlet, de William Shakespeare – Ato III, Cena I

Original em inglês:

“To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life. (…)”

 

Tradução de Barbara Heliodora (editora Nova Fronteira):

“Ser ou não ser, essa é que é a questão:

Será mais nobre suportar na mente

As flechadas da trágica fortuna,

Ou tomar armas contra um mar de escolhos

E, enfrentando-os, vencer? Morrer – dormir,

Nada mais; e dizer que pelo sono

Findam-se as dores, como os mil abalos

Inerentes à carne – é a conclusão

Que devemos buscar. Morrer – dormir;

Dormir, talvez sonhar – eis o problema:

Pois os sonhos que vierem nesse sono

De morte, uma vez livres deste invólucro

Mortal, fazem cismar. Esse é o motivo

Que prolonga a desdita desta vida. (…)”

 

Tradução de Millôr Fernandes (L&PM Pocket):

“Ser ou não ser – eis a questão.

Será mais nobre sofrer na alma

Pedradas e flechadas do destino feroz

Ou pegar em armas contra o mar de angústias –

E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;

Só isso. E com o sono – dizem – extinguir

Dores do coração e as mil mazelas naturais

A que a carne é sujeita; eis uma consumação

Ardentemente desejável. Morrer – dormir –

Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!

Os sonhos que hão de vir no sono da morte

Quando tivermos escapado ao tumulto vital

Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão

Que dá à desventura uma vida tão longa. (…)”

 

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes – Capítulo VIII

Original em espanhol:

“En esto, descubrieron treinta o cuarenta molinos de viento que hay en aquel campo; y, así como don Quijote los vio, dijo a su escudero:

–La ventura va guiando nuestras cosas mejor de lo que acertáramos a desear, porque ves allí, amigo Sancho Panza, donde se descubren treinta, o pocos más, desaforados gigantes, con quien pienso hacer batalla y quitarles a todos las vidas, con cuyos despojos comenzaremos a enriquecer; que ésta es buena guerra, y es gran servicio de Dios quitar tan mala simiente de sobre la faz de la tierra.

–¿Qué gigantes? –dijo Sancho Panza.

–Aquellos que allí ves –respondió su amo– de los brazos largos, que los suelen tener algunos de casi dos leguas.

–Mire vuestra merced –respondió Sancho– que aquellos que allí se parecen no son gigantes, sino molinos de viento, y lo que en ellos parecen brazos son las aspas, que, volteadas del viento, hacen andar la piedra del molino.

–Bien parece –respondió don Quijote– que no estás cursado en esto de las aventuras: ellos son gigantes; y si tienes miedo, quítate de ahí, y ponte en oración en el espacio que yo voy a entrar con ellos en fiera y desigual batalla.

Y, diciendo esto, dio de espuelas a su caballo Rocinante, sin atender a las voces que su escudero Sancho le daba, advirtiéndole que, sin duda alguna, eran molinos de viento, y no gigantes, aquellos que iba a acometer. Pero él iba tan puesto en que eran gigantes, que ni oía las voces de su escudero Sancho ni echaba de ver, aunque estaba ya bien cerca, lo que eran; antes, iba diciendo en voces altas:

–Non fuyades, cobardes y viles criaturas, que un solo caballero es el que os acomete.

Levantóse en esto un poco de viento y las grandes aspas comenzaron a moverse, lo cual visto por don Quijote, dijo:

–Pues, aunque mováis más brazos que los del gigante Briareo, me lo habéis de pagar.”

 

Tradução de Ernani Ssó (Penguin – Companhia das Letras):

“Nisso avistaram trinta ou quarenta moinhos de vento que há naquele campo. Mal dom Quixote os viu, disse a seu escudeiro:

  • O acaso vai guiando nossas coisas melhor do que poderíamos desejar: olha lá, amigo Sancho Pança, onde estão uns trinta gigantes monstruosos, com quem penso travar batalha e a todos tirar as vidas. Com os despojos deles começaremos a enriquecer, que esta guerra é boa, e grande serviço presta a Deus quem varre da face da terra semente tão maligna.

  • Que gigantes? – disse Sancho Pança.

  • Aqueles ali, de braços compridos – respondeu o amo. – Alguns costumam ter braços de quase duas léguas.

  • Olhe vossa mercê – respondeu Sancho -, aqueles que estão ali não são gigantes, mas moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as pás, que, rodadas pelo vento, fazem trabalhar as mós.

  • Bem se vê – respondeu Dom Quixote – que não és versado em aventuras: eles são gigantes. E, se tens medo, some-te daqui e fica rezando enquanto isso, porque vou travar com eles uma batalha feroz e desigual.

E, dizendo isso, esporeou seu cavalo Rocinante, sem ligar para os gritos de seu escudeiro Sancho, avisando-o de que sem dúvida nenhuma eram moinhos de vento e não gigantes aqueles que ia atacar. Ele ia tão convencido de que eram gigantes que nem ouvia seu escudeiro Sancho nem conseguia ver o que eram, embora já estivesse bem perto; pelo contrário, ia dizendo aos brados:

  • Não fujais, covardes e vis criaturas, que apenas um cavaleiro vos ataca.

Nesse instante o vento soprou um pouco, e as grandes pás começaram a se mover; vendo isso dom Quixote disse:

  • Ainda que movais mais braços que os do gigante Briareu, haveis de me pagar.”

 

Tradução de Sérgio Molina (Editora 34):

“Nisto avistaram trinta ou quarenta moinhos de vento dos que há naqueles campos, e assim como D. Quixote os viu, disse ao seu escudeiro:

  • A ventura vai guiando as nossas coisas melhor do que pudéramos desejar. Vê lá, amigo Sancho Pança, aqueles trinta ou poucos mais desaforados gigantes, com os quais penso travar batalha e tirar de todos a vida, com cujos despojos começaremos a enriquecer, que esta é boa guerra, e é grande serviço de Deus varrer tão má semente da face da terra.

  • Que gigantes? – disse Sancho Pança.

  • Aqueles que ali vês – respondeu seu amo – de longos braços que alguns os chegam a ter quase duas léguas.

  • Olhe vossa mercê – respondeu Sancho – que aqueles que ali aparecem não são gigantes, e sim moinhos de vento, e o que neles parecem braços são as asas, que, empurradas pelo vento, fazem rodar a pedra do moinho.

  • Bem se vê – respondeu D. Quixote – que não és versado em coisas de aventuras: são gigantes, sim, e se tens medo aparta-te daqui, e põe-te a rezar no espaço em que vou com eles me bater em fera e desigual batalha.

E isso dizendo, deu de esporas em seu cavalo Rocinante, sem atentar às vozes que o seu escudeiro Sancho lhe dava, advertindo-lhe que sem dúvida alguma eram moinhos de vento, e não gigantes, aqueles que ia acometer. Mas ele ia tão certo de que eram gigantes, que nem ouvia as vozes do seu escudeiro Sancho, nem via o que eram, apesar de já estar bem perto, antes ia dizendo em altas vozes:

  • Non fuxades, cobardes e vis criaturas, que um só cavaleiro é este que vos acomete.

Nisto se levantou um pouco de vento, e as grandes asas começaram a girar, o qual visto por D. Quixote, disse:

  • Ainda que movais mais braços que os do gigante Briaréu, haveis de pagar-me.”
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