22 Mar, 2016

A tradução simultânea ajuda a fazer História

22 Mar, 2016

A segunda-feira, 21 de março de 2016, já pode ser considerada uma data histórica. Barack Obama e Raúl Castro protagonizaram um momento até pouco inimaginável na política internacional. Pela primeira vez em 88 anos, um presidente americano, ainda no exercício do mandato, foi a Cuba se reunir com o chefe de estado da ilha (o ex-presidente Jimmy Carter esteve em Havana em 2011).

O encontro entre os dois líderes, registrado nesta imagem, contou com participantes invisíveis, porém indispensáveis para essa cena de forte carga simbólica: os intérpretes de conferência. Na foto, Obama e Castro aparecem com fones de ouvido (o presidente americano segura o aparelho com a mão), através dos quais escutam a tradução simultânea produzida pelos intérpretes, entre o inglês e o espanhol. Situações como essa exigem do profissional da tradução um altíssimo grau de responsabilidade, técnica, precisão e sangue frio – afinal de contas, é preciso segurar a tensão que costuma permear esses encontros, capazes de mudar os rumos das relações internacionais. “Intérpretes são acrobatas da língua, sempre caminhando sobre a corda bamba”, disse certa vez o estudioso Jean Delisle, professor emérito da Faculdade de Tradução e Interpretação da Universidade de Ottawa, no Canadá. Em momentos como o registrado na imagem, a afirmação é mais verdadeira do que nunca.

Sem a interpretação de conferência, encontros como este simplesmente não seriam possíveis. Ao longo da história da diplomacia, a interpretação teve papel preponderante. Desde a Antiguidade até a recentíssima reunião entre os líderes americano e cubano, a tradução oral – seja na modalidade consecutiva, sussurrada ou simultânea – sempre esteve presente. No livro “Interpreters as Diplomats” (Intérpretes como Diplomatas), a autora Ruth A. Roland, doutora em Ciência Política pela Universidade de Nova York, conta que o macedônio Alexandre, o Grande (356 – 323 a.C.) recrutou dezenas de jovens para aprender grego e trabalhar nas traduções de interesse do estado. Quando as naus portuguesas aportaram no Brasil, em 1500, Gaspar da Gama – um judeu polonês convertido ao Cristianismo, viajado e fluente em diversos idiomas – foi um dos primeiros a pisar em terra firme, trazido por Pedro Álvares Cabral para ajudar na comunicação com os indígenas. Os exemplos seguem, infindáveis, passando pelas cúpulas que determinaram o fim das duas grandes guerras, pela criação da Liga das Nações e da ONU e pelo famoso Julgamento de Nuremberg – primeira vez na história em que se utilizou a tradução simultânea como a conhecemos hoje: um sistema de microfones e fones de ouvido distribuídos entre os participantes, e uma equipe de intérpretes fazendo tradução em tempo real.

Agora, o encontro entre Obama e Castro comprova, mais uma vez, que os intérpretes de conferência asseguram a existência daquilo que conhecemos como “relações internacionais”.

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