17 Dez, 2015

Com a palavra, a intérprete Beatriz Velloso

17 Dez, 2015
Entre os principais desafios do trabalho do intérprete está a dificuldade de contemplar, em tempo real, todas as nuances do discurso traduzido. A intérprete Beatriz Velloso viveu recentemente uma situação que ilustra isso. No meio de um evento de empresas do setor de bebidas, foi chamada para interpretar uma conversa informal entre dois executivos: um brasileiro; o outro, inglês. Ela conta:
“O brasileiro era descontraído e divertido. Na conversa com o colega inglês, ele desviou do tema principal da reunião e resolveu falar de sua origem simples: disse que era ‘matuto’, que tinha ‘vindo da roça’. Nos poucos segundos que eu tinha para pensar numa versão, não me ocorreram sinônimos exatos para a palavra ‘matuto’ ou para a expressão ‘da roça’, ambas tipicamente brasileiras.
Tive de me contentar com algo como ‘sou uma pessoa simples, vinda do interior’, uma solução que comunicou o conteúdo da fala, mas não deu conta das sutilezas.
O brasileiro prosseguiu dizendo, de forma bem-humorada, que seu interlocutor inglês o havia colocado no ‘alto da cumeeira’, o que optei por traduzir como ‘alto do telhado’. Sutilezas à parte, a comunicação se estabeleceu: o inglês riu da brincadeira, e percebi que a mensagem central havia sido transmitida.
Terminado o trabalho, fui pesquisar o termo cumeeira e encontrei ‘ridge’. Muito embora se refira à parte mais alta do telhado, onde as duas laterais inclinadas se encontram, a palavra em inglês não carrega todos os sentidos que ‘cumeeira’ traz para um brasileiro. Eu, por exemplo, sempre que ouço essa palavra me lembro da letra de Águas de Março: ‘é a viga/é o vão/festa da cumeeira’. ‘Ridge’ é um termo de arquitetura e engenharia, bem mais frio, sem nuances.
Mas como transmitir toda a riqueza dessa palavra do nosso idioma tendo apenas dois ou três segundos para pensar numa solução? O jeito é encontrar a melhor alternativa possível diante das limitações impostas pela nossa profissão – o tempo exíguo é uma delas. E bola pra frente! Se fosse me apegar a esse tipo de detalhe, não poderia ter escolhido trabalhar com interpretação simultânea!”
Saiba mais sobre a formação e a experiência profissional de Beatriz Velloso aqui: http://goo.gl/YfSWXi
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