11 Ago, 2014

Perguntaram ao intérprete: Como anda sua língua A?

11 Ago, 2014

O bom intérprete de conferências costuma ler muito, estudar bastante, viajar para outros países para praticar seus idiomas de trabalho e estar atento a questões linguísticas, principalmente as relativas à suas línguas B e C.  

Para um intérprete, pode ser constrangedor ouvir que deve aperfeiçoar sua língua A. A tendência é pensarmos que nos garantimos em nosso idioma, que nele sempre haverá uma forma de expressar uma ideia dita em outra língua. Sim, é verdade, mas encontrar alguma maneira não é o mesmo que encontrar  a maneira de dizer as coisas, o que às vezes é necessário.

Você estaria preparado para falar diante do conselho das Nações Unidas, ou para se pronunciar como presidente num encontro dos BRICS? Se a resposta é não, certamente não estará preparado para interpretá-lo, o que ressalta a importância da preparação para o trabalho da tradução simultânea de discursos formais, também no próprio idioma. A melhor forma de fazer isso é praticando. Fontes não faltam, tanto escritas como em vídeo. Na internet é possível encontrar discursos de líderes políticos com um único click. E ainda que você passeie mais pela iniciativa privada que por âmbitos governamentais, vale a pena estar preparado para tudo, e procurar desenvolver uma bagagem em vários registros. Porque, sim, eles variam e vão aparecer mais cedo ou mais tarde na vida do intérprete.  Nossa sorte é que para quase tudo hoje em dia existe a internet, convenhamos, já quase uma verdadeira mãe.

Ler muito, ler sempre, ler fontes confiáveis, com textos de qualidade, e sempre que possível também aquelas utilizadas pelo cliente. Ir além da leitura no metrô, ou da passada de vista nas manchetes principais, de um ou outro editorial, das charges do dia. É preciso ler ativamente: anotar termos novos e termos antigos com novos usos. Depois, criar-lhes novos contextos. A velha técnica de criar novas frases e para um mesmo vocábulo, trazê-lo ao próprio mundo até torná-lo parte de nosso vocabulário ativo, isto é, aquele que  não só compreendemos mas também usamos em nossa produção linguística.

Você, intérprete de conferências ou tradutor, leve em consideração que sua língua não é falada da mesma maneira em todos os países, o que significa que talvez um brasileiro precise se preocupar um pouco mais com como se expressar em Moçambique ou Portugal, assim como precisará habituar-se à variedade do português falado e escrito nessas regiões, o que não se resume à descoberta divertida de falsos cognatos e da enumeração de gafes típicas de turistas recém-chegados. Passa por entender a forma como os falantes desse idioma, que é a sua língua A, expressam suas ideias e organizam seu discurso.

O domínio da língua A não é um programa nativo do sistema operacional da fala. Não é automático. Deve ser cultivado constantemente se quisermos ter à mão todas as ferramentas do pacote. Como programas de computadores, há que atualizá-los, adaptar-se aos novos layouts, verdade seja dita, nem sempre tão amigáveis quanto os de versões anteriores e provavelmente nunca melhores do que aqueles aos quais vínhamos nos habituando e com os quais trabalhávamos tão confortavelmente, mas sejamos otimistas: há mais ganhos que perdas: seremos sempre algo saudosistas do amarelento cheiro do papel couché, mas temos logo ali, nas telas de nossos computadores, os jornais do mundo inteiro, pesquisas acadêmicas, livros, vídeos, podcasts, além de cursos e especializações on-line.

Com tantos recursos, a preparação do intérprete ficou muito mais fácil. E, definitivamente, se preparar – inclusive na língua A – é preciso. O difícil vai ser encontrar uma desculpa. Ou melhor, talvez nem tanto. Basta procurar no Google. 

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